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Carta ao novo intercambista

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | Leave a comment

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Olá, novo intercambista!
Bom, vou direto ao ponto.

Às vezes você vai surtar. E irá se perguntar porque está do outro lado do mundo trabalhando pesado, dividindo quarto e talvez até passando por certas dificuldades…sendo que a vida era tão mais “fácil” lá, na sua ZONA DE CONFORTO, no seu país.
Mas é bem assim: tudo INTENSO, ambíguo e as vezes meio sem sentido. Sim, em alguns dias você vai acordar desejando estar em casa. E no mesmo dia, vai dormir querendo morar aqui pra sempre. Louco, né?! Nada, bem normal por aqui.

É possível que você (embora não deveria) se apaixone algumas vezes. Mas daí você vai se dar conta de que aqui tudo VAI e VEM de forma rápida. Tudo parece ter uma proporção maior do que realmente é. Dai você – felizmente – irá descobrir que não era paixão, e sim carência. Não confunda, ok?!

Você vai superar seus LIMITES e descobrir que é mais autosuficiente que pensava. Você vai sentir muita SAUDADE, muita mesmo. Mas, de alguma forma, vai aprender a lidar com ela. Vai amar a LIBERDADE e se viciar nela. Vai perceber que o mundo está lá fora a sua disposição e nada te impede de explorá-lo. Vai descobrir que não precisa de todo aquele materialismo pra ser FELIZ. Colecionará mais MOMENTOS, e menos bens. Vai concluir que o verbo da felicidade é o “CONHECER”: lugares, pessoas, culturas e, claro, a SI MESMO.

Falando em conhecer pessoas, prepare-se: você vai fazer amizades preciosas. As vezes da noite pro dia. Sim, só quem vive essa experiência entende a força das relações que construímos por aqui. Você está sim, SOZINHO e, ao mesmo tempo, RODEADO. É incrível como, estando longe dos nossos queridos, acolhemos uns aos outros com todas as garras. É a FAMÍLIA que você escolhe – ou talvez o destino te oferece. O que nos fazem tão próximos? Os mesmos receios, as mesmas sensações e aprendizados. A melhor parte é essa – não economize, faça muitos amigos!

Você vai viver EXPERIÊNCIAS surreais e enriquecedoras! E talvez não perceba isso até que tudo passe, pois a ficha as vezes só cai quando nos distanciamos. Até você se ver contando casos para amigos, e se dar conta de quanta história você viveu em tão pouco tempo. Ah, falando em TEMPO, ele voa por aqui. Numa velocidade bem maior do que para aqueles que te esperam voltar.
Enfim, o resto você vai descobrir por si mesmo! Bem-vindo! Aperte os cintos e aproveite cada minuto. :)

Por Renata Stuart

Entre Aspas – Perder a viagem

Posted on by Renata Stuart in Entre Aspas | 7 Comments

Oi, gente! Bom, a tag ‘palavra do dia’ teve seu nome alterado para “Entre Aspas”, não vai mudar nada, mas acho que esse nome combina mais com o objetivo, já que não posto textos de outros autores diariamente, mas sim aleatoriamente. No “Entre Aspas” de hoje,  eu vou compartilhar com você mais uma crônica que eu amo da minha ”musa inspiradora” rsrs  (meu sonho é escrever como ela!): Martha Medeiros. Sei que já postei muitas palavras dela aqui já, mas não me canso. Ela é fantástica e tem uma sensibilidade incrível de transmitir a vida em palavras. Espero que gostem! Beijos e…comentem!

 

 

Perder a viagem

Você pede ao patrão para sair mais cedo do trabalho, pega um ônibus lotado, vai para um consultório médico que fica no centro da cidade, gasta seus trocados, seu tempo e seu humor, e, ao chegar, esbaforido e atrasado, descobre através da secretária que sua hora, na verdade, está marcada para semana que vem. Sinto muito, você perdeu a viagem.

Todo mundo já passou por uma situação assim, de estar no lugar errado e na hora errada por pura distração. Acontecendo só de vez em quando, tudo bem, vai pra conta dos vacilos comuns a qualquer mortal. O problema é quando você se sente perdendo a viagem todos os dias. Todinhos. É o caso daqueles que ainda não entenderam o que estão fazendo aqui.

Estão perdendo a viagem aqueles que não se comprometem com nada: nem com um ofício, nem com um relacionamento, nem com as próprias opiniões. Estão sempre flanando, flutuando, pousando em sentimento nenhum, brigando por idéia nenhuma, jamais se responsabilizando pelo que fazem, pois nada fazem. Respirar já lhes é tarefa árdua e suficiente. E os dias passam, e eles passam, e nada fica registrado, nada que valha a pena lembrar.

Estão perdendo a viagem aqueles que, em vez de tratarem de viver, ficam patrulhando a existência alheia, decretando o que é certo e errado para os outros, não tolerando formas de vida que não sejam padronizadas, gastando suas bocas com fofocas, seus olhos com voyeurismo, sem dedicar o mesmo empenho e tempo para si mesmo.

Estão perdendo a viagem aqueles preguiçosos que levam semanas até dar um telefonema, que levam meses até concluir a leitura de um livro, que levam anos até decidir procurar um amigo. Pessoas que acham tudo cansativo, que acreditam que tudo pode esperar, que todos lhe perdoarão a ausência e o descaso.

Estão perdendo a viagem aqueles que não sabem de onde vieram nem tentam descobrir. Que não sabem para onde ir e nem tentam encontrar um caminho. Aqueles para quem a televisão pode tranqüilamente substituir as emoções.

Estão perdendo a viagem aqueles que se entregam de mão beijada às garras do tédio.

 

Por Martha Medeiros