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De um diário para o mundo

Posted on by Renata Stuart in Resenhas | 2 Comments

exposicaomenorDe uma escrita despretensiosa, como quem precisa desabafar e externar o medo, nasce uma história, infelizmente real, contada por uma adolescente a milhões de pessoas de todo o mundo. Hoje visitei a exposição internacional sobre a vida de Anne Frank, na Escola Superior Dom Helder Câmara, aqui em Belo Horizonte(MG).  Uma verdadeira viagem a esse passado horrendo do Holocausto, que marcou nossas vidas e nossos livros de história para sempre.  A mostra está montada bem no hall de entrada do prédio onde funciona a faculdade (Rua Álvares Maciel, 628 – Santa Efigênia) e a entrada é gratuita.

Uma linha do tempo divide duas as histórias: A da pequena Anne e a do nazismo, ideologia que surge em meio a um cenário devastado na Alemanha – derrotada na Primeira Guerra Mundial e repleta de indenizações a pagar – em que a população se encontra desempregada e em extrema miséria, com todos se sentindo amargurados e com sentimento de vingança. Os painéis – muito bem feitos, por sinal, – contam, por meio de fotolegendas, a crise na Alemanha, as ações de Adolf Hitler e seu partido (NSDAP) e, paralelamente, a história de Anne, seu nascimento, sua família, sua vida escolar, e assim por diante.

De um lado, o ódio cada vez maior aos judeus, com os nazistas os responsabilizando por todos os problemas enfrentados pelo país, o crescimento absurdo dos seguidores do Hitler e seu destaque gradual nas eleições. De outro, a garotinha – que sonhava em ser escritora ou jornalista – vai crescendo, frequenta a escola com seus amigos alemães, até que, em janeiro de 1933, após a ascensão de Hitler no governo alemão, ela precisa emigrar às pressas para Amsterdã, na Holanda, junto com sua família. E é nesse cenário em que o diário começa a a ser escrito, anos mais tarde, em 1942, dentro de um esconderijo nos fundos da firma do pai, Otto Frank.

Frases impactantes – retiradas do diário de Anne Frank – são misturadas a imagens da menina de rosto meigo e a cenas da intolerância do nazismo, além de fatos históricos da Segunda Guerra Mundial. É tudo muito sufocante e inacreditável. Por mais que o assunto seja martelado em todo nosso período escolar, por mais que existam centenas de filmes relatando esse genocídio, estar diante dessa história será, sempre, perturbador. As imagens foram bem selecionadas e os textos que as acompanham seguem uma linguagem de fácil compreensão. É como mergulhar num livro de história bem didático. Além dos painéis, uma TV de frente a um pequeno sofá – no mesmo local – passa um documentário sobre o assunto, também mesclando a vida da garota ao acontecimento histórico.

Anne foi apenas uma menina que havia ganhado um diário num momento turbulento e, coincidentemente, gostava (e precisava) de escrever. Ela se tornou um símbolo do martírio judeu e da luta contra a intolerância, pela preservação da liberdade e dos direitos humanos, e por uma sociedade democrática e pluralista. Mas e todos os Betos, Thiagos, Celsos, Marias, Cristinas, Simones (não conheço nomes em alemão) que não tiveram a oportunidade (nem tempo) de contar (ou de viver) suas histórias? A essas seis milhões de vozes caladas eu dedico este texto.

A exposição “Anne Frank: uma história para hoje”, é apenas uma parte da exposição maior “Brasil e Holanda – Paz e Justiça – Refletindo sobre o passado, construindo um futuro melhor”. Há, ainda, uma seção que resgata a vida de João Maurício de Nassau e sua influência no Brasil no século 17 e outra sobre Haia,  conhecida como a Cidade Internacional da Paz e da Justiça. A visitação ocorre até o dia 31 de maio, de segunda à sexta-feira, das 8h às 21h, e aos sábados, de 8hs às 15hs. Recomendo!

Por Renata Stuart

Em busca do ontem

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 2 Comments

Você pode voltar a Paris, porque deu saudade. Pode voltar para casa depois de um dia cansativo, pode voltar à sua cidade natal só para viver um momento nostálgico. Pode voltar a um restaurante, porque curtiu o tempero ou o modo como foi atendido. Só não se pode voltar ao ontem. O ontem é página virada. É assunto encerrado. É o tempo dissolvido em meras lembranças.

O ontem é a palavra grosseira que saiu na hora da raiva, por impulso. É a palavra amorosa que não saiu por orgulho, afinal você imaginava que teria outras chances de proferi-la. É a quantidade de dias que você perdeu não estando ao lado de quem ama por soberba, por medo de dar o braço a torcer, e dizer: “Ei, você me faz falta”.

O ontem é a mentira, a chance de dizer a verdade, que foi perdida. É o perdão negado. É o descaso, é uma amizade que perdemos sem perceber. É a juventude que se foi tão rapidamente. É a atitude reprimida. É a coragem que você se esqueceu de usar, quando mais precisou.

É o beijo dado sem ênfase. É o sorriso guardado. É a traição cometida. É a fidelidade ferida e o respeito invalidado. Não há volta. É a história construída em anos e destruída em instantes.

O ontem fica logo ali, há um segundo, quando você leu o parágrafo de cima. Mas é irreversível. Não retornável. Não é possível pegar o próximo táxi e dizer: “Por favor, me leve no ano de 2006, mais especificamente no dia 25 de setembro, tenho uns assuntos pendentes por lá”. Não. O único local que está ao nosso alcance é o HOJE. E é nele que temos a chance de fazer o novo, de novo, e melhor.

Apesar de não existir uma borracha que apague as cicatrizes do ontem, o AQUI e o AGORA é a única chance que nos resta de não repetir os erros do passado. Valorizar mais, demonstrar mais, ser mais leal, mais ousado, menos covarde, mais humilde, menos orgulhoso.

Faça o que tiver que fazer, mas faça agora, pois, até onde eu sei, ainda não inventaram a máquina do tempo.