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A dor precisa ser sentida

Posted on by Renata Stuart in Desabafos | 3 Comments

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5 anos. É inevitável. Todo ano, passada a correria das festas de natal e reveillon – datas comemorativas que você tanto amava – vem à tona o eterno vazio deixado após o dia 4 de janeiro de 2009. Não que no resto do ano não nos lembremos de você, isso acontece a todo instante, principalmente nos momentos de felicidade, naqueles em que eu daria tudo, tudo mesmo, para você estar conosco…e fico imaginando suas reações, o que diria, como estaria. Mas é que mesmo tentando me desapegar de datas tristes e sombrias como a de hoje, não dá…E como dizem, a dor precisa ser sentida para, aos poucos, cicatrizar. No meu caso, a dor precisa ser escrita.

O pior momento da minha vida foi numa segunda-feira à noite, depois de uma virada de ano sem brindes, sem fogos, sem glamour… mas em quatro paredes de um hospital, quando você já estava sem conseguir falar pela  dificuldade na respiração…e com delírios em decorrência da enorme quantidade de morfina.  Apesar disso tudo, a tal “esperança industrializada” já poetizada por Drummond estava ali comigo, com “outro número no calendário e outra vontade de acreditar” que um novo ano poderia mudar o rumo das coisas, mudar o seu rumo, o nosso. Mas não, ainda que tenhamos suplicado, Deus não quis assim.

Doeu ter que deixar seu quarto naquele dia, algo me prendia ali, eu não queria ir embora de jeito nenhum, dormiria até no banheiro se pudesse, mas minha mãe insistiu que só ela e meu pai poderiam passar a noite ao seu lado.  Me despedi de você, disse que te amava, e falei que você não precisava fazer esforço para me responder. Pelo que sei, enquanto eu ainda estava no elevador, você se foi… E, no caminho de casa, eu chorava, chorava, chorava tanto, que, de alguma forma, eu deveria saber que você partiu. Me lembro que chovia muito e minha vontade era sair correndo na chuva sem rumo. Só quando cheguei em casa, meu irmão, fui saber, por meio de um telefonema do meu pai- que nunca, nunca vou esquecer, por mais que eu queira,-   que você esperou apenas eu sair do quarto para ir embora.

O resto você já deve saber. Eu quis morrer, gritei coisas que não devia para Deus e pensei que eu fosse enlouquecer. Ninguém estava preparado para perder você. Nunca estamos. Pedi a Deus até que você revivesse ou que tudo fosse um pesadelo terrível daqueles que a gente acorda chorando, suado, e aliviado. Mas não, era verdade. Verdade que eu só constatei ao voltar no hospital e encontrar sua cama vazia e procurar por você desesperadamente.

Hoje, às vezes ainda me pego procurando por você. Nas ruas, nos garotos levemente parecidos com você, ao lado dos seus amigos que cresceram numa velocidade absurda. Marcus, você é tão especial, meu irmão, que Deus estava precisando de você para outras missões muito além das que você realizou aqui. Hoje, não nos resta dúvidas, meu neném, você foi um anjo que por quinze anos nos amou com seu jeitinho tão puro, nos mostrou o que é felicidade plena e nos ensinou o valor das pequenas coisas. Nos fez rir, nos fez mais unidos, nos fez mais humanos.

Sinto sua falta de um jeito inexplicável e a dor, ainda que mais silenciosa, ainda é forte. Sinto falta da sua proteção de irmão, do ciúme disfarçado que você tinha de suas duas irmãs, da nossa infância gostosa, dos tombos de bicicleta, das diversas vezes que você, tão guloso e amante da culinária, já almoçava escolhendo o menú do jantar. Das confidências que você me fazia sobre suas paqueras, das vezes que eu te chamava de “meu lindo” ou “meu neném” no recreio da escola e te matava de vergonha perto dos seus amigos, das brincadeiras, das briguinhas, de poder cheirar você, de beijar sua orelhinha, de te abraçar forte, e de me gabar: “esse loiro lindo de olhos azuis, forte e alto, é meu irmão, meninas! Entrem na fila porque ele está crescendo”.

Você, meu irmão, além de lindo, era educado, brincalhão, meigo, cavalheiro  e muito inteligente. Tenho o maior orgulho de ser sua irmã. E agradeço a Deus por Ele ter escolhido a minha família para viver 15 anos com você. Sim, ainda que com essa lacuna, somos privilegiados por ter tido você em nossas vidas. Mas, confesso, ainda é surreal pensar que já se passou tanto tempo. Meia década é tempo demais. Não me pergunte como estamos aguentando, pois não saberei responder. É como eu disse certa vez, a força que acreditamos que não temos (e não temos mesmo) surge de algum lugar, como se a única opção fosse segurá-la e, então, a gente se segura nela e vai, meio que por impulso…

5 anos. Faz 5 anos que sofremos a dor da sua perda. Faz  anos que nossa casa respira a sua ausência, todo dia.  Que a sua alegria de viver não ilumina nossos dias. Faz 5 anos que estamos sem seu sorriso lindo e sua risada gostosa. Que não vemos um novo gesto seu e nem ouvimos uma nova palavra dita por você, o máximo de realidade que temos estão nas fotografias e vídeos. Exceto nos sonhos, quando tudo é inédito e parece que você realmente nos visitou. Faz 5 anos que a vida se tornou mais insegura diante dos meus olhos e faz 5 anos que, ao fechar os olhos para fazer uma oração, não sei mais pedir, mas só agradecer pela saúde das pessoas que amo. Enquanto seguimos a vida sem você, só nos resta acreditar que você está em um lugar lindo, infinitamente melhor que aqui, com seu carisma e sua bondade, olhando por nós lá de cima, pedindo a Deus para dar uma atençãozinha especial aqui.

*Saywer Forever! Te amaremos para sempre!

Marcus e Cia 15-1-2008 21-09-19

Por Renata Stuart

Escrevendo sobre o inevitável …

Posted on by Renata Stuart in Desabafos, Reflexão | Leave a comment

Eu tentei evitar falar sobre isso, aliás, sigo todos os dias da minha vida tentando não pensar nisso.  E eu tentei adiar esse momento, mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que me sentar e escrever sobre isso.  Isso que eu não gosto nem de citar o nome. Tá, pode parecer superstição ou sei-lá-o-quê, mas eu não gosto de falar o nome e pretendo ir até o fim desse texto sem sequer citar o objeto dele.

Isso que não aconteceu comigo ainda, mas vai acontecer. Não aconteceu com você que está lendo essa crônica nesse instante, mas vai acontecer, cedo ou tarde. Talvez você não tenha tempo nem de chegar ao fim desta crônica, mas talvez você tenha tempo não só de ler essa crônica, mas também de ir estudar amanhã, depois e depois até pegar seu diploma em direito, casar-se com seu futuro marido que você vai conhecer no tribunal, ter uma carreira reconhecida e mega estabilizada e, claro, muitos filhos de dar orgulho. Enfim. Cedo ou tarde, não importa quando, um dia isso vai acontecer com você e com todos. Mas o fato é: nunca estamos preparados para isso.

Já sabe do que estou falando, né? É bom que saiba, pois não posso ser mais literal que isso.  Parece ironia eu falar disso justo agora, logo em seguida da última crônica que postei aqui, em que o assunto era a celebração da vida, da existência. Sim, a vida é linda e é justo que se façam milhares de histórias, textos, crônicas, versos, poesias e sonetos sobre ela. Mas o fim da vida – que não manda cartão postal anunciando sua chegada – também deve ser retratado, afinal, ele é totalmente intrínseco a nossa vida.

Dizem que morrer faz parte da vida. Ninguém aceita, mas faz. A vida tem suas milhares de fases e a morte é apenas uma delas. Pronto. Parece frio e seco dito assim, à grosso modo, eu sei. Como se isso fosse óbvio e incontestável, mas não é. Não é simples assim e eu ainda não consigo aceitar a morte, justamente eu, que tenho essa mania de querer que tudo seja para sempre.

Acho muito fácil algumas pessoas falarem que a morte faz parte da vida e que devemos aceitá-la a todo custo. ‘Aceitar’ não sei bem se é a palavra, acho que caberia  mais ‘suportar’, ‘tolerar’. Não entra na minha cabeça que devo aceitar tranquilamente que nunca mais verei meu irmão caçula que eu tanto amo. O que eu entendo é que não tenho escolha, não me restam opções. O mundo não acabou como eu achei que acabaria e, dessa forma, sigo vivendo sem ele. Aceitando? Jamais. Mas seguindo como alguém que é incompleto. Mas, afinal, quem é completo nessa vida? Todo mundo sente falta de algo. Uns de pessoas, outros de coisas, outros de sentimentos, outros de status. E todos vão vivendo assim, nessa busca incessante de suprir a falta de algo.

Antes de simplesmente nos falarem que a morte faz parte da vida deveriam implantar esse ensinamento nas escolas então, desde o princípio, lá no maternal, sabe? Para que cresçamos com a consciência natural de que, no meio do percurso da vida, algumas pessoas nos serão tomadas e que não devemos irracionalmente querer apertar o stop e parar de viver também. Por outro lado, pensando bem, se a morte fosse tratada das escolas comumente, tenho certo receio de que tanta naturalidade a banalizaria. Ou seja, as pessoas poderiam até sofrer menos com as perdas, mas também seriam mais frias e, talvez, insensíveis. Sei lá, acho arriscado.

E a esta altura, você já deve ter reparado que, ao contrário do que prometi no início, acabei soltando a palavra que resume essa crônica: A morte. É, vamos repetir: a morte. Quem sabe assim fica mais fácil aceitar essa cruel que só nos condena a tristeza e a saudade. Sei que não é um assunto legal para se ler, me perdoe. A morte ainda é tabu e ler uma crônica sobre ela não anima o dia de ninguém. Mas, assim como eu disse no texto anterior que envelhecer é viver, morrer também é viver, afinal, para morrer, é preciso, antes, estar vivo.

 

Por Renata Stuart