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Momentos da vida real que perdemos para a vida virtual

Posted on by Renata Stuart in Episódios, Reflexão | Leave a comment

No último domingo, eu acordei e decidi dar uma volta na Lagoa da Pampulha. Quando eu digo “volta”, não quero dizer que completei os 18km em torno da lagoa – não estava tão disposta assim – mas fui fazer uma caminhada de leve e pegar um ar fresco. Quando estou sozinha, gosto de ouvir música e olhar pras paisagens, pessoas e animais com os quais eu cruzo. Pessoas sorrindo e pedalando, homens atléticos correndo, idosos se movimentando em busca de uma vida saudável, gringos fotografando as capivaras, e até a lamentável sujeira da água. Mas uma cena em particular me chamou a atenção.

Um bebê, de 1 ano e alguns meses, aparentemente dando sua primeira voltinha na lagoa da “pampuia”.(como eu costumava chamá-la quando era criança). Era nítida a alegria dele, andando de um jeito tão engraçadinho como quem havia aprendido a dar os primeiros passos recentemente. Eu fiquei olhando praquela fofura e ele sorriu pra mim com os olhinhos. Parecia estar todo orgulhoso de sua caminhada independente (claro, com sua mãe o seguindo logo atrás, pronta para impedir qualquer tropeço). Foi quando ela o disse: “olha o papai vindo ali!” O pai vinha na direção contrária, de frente pra ele, que rapidamente se apressou e abriu ainda mais o sorriso, como quem dizia: “Olha aqui, papai.”

Eu, que caminhava devagar para acompanhar a cena, estava já na ansiedade de ver o olhar do pai se encontrar com o dele. Continuei olhando e nada. O pai estava com a cabeça baixa, mexendo no celular. Nesta hora eu já havia passado deles e estava andando com a cabeça virada pra trás, na esperança de que ele ia sim tirar os olhos da tela e ver aquela cena fofa e única que estava bem em sua frente. Nada. Não deu tempo. Ele perdeu aquele momento. O garotinho logo se dispersou e o rostinho empolgado desapareceu.

Queria ter gritado: “presta atenção no seu filhinho todo feliz chamando a sua atenção!”. Ao invés disso, só fiquei refletindo. Quantas vezes perdemos momentos reais por estarmos de olho aqui, no mundo “online”? Quantas coisas belas nós provavelmente já deixamos de ver porque tinha algo roubando nossa atenção na tela? Quantos casais se sentam na mesa de um restaurante e passam boa parte do jantar no whatsapp, instagram? Quantas vezes perdemos a apreciação de uma vista ou um lugar novo por estarmos mais preocupados com a “Selfie”? Quantas vezes estamos em um grupo de amigos e perdemos tempo conectados aqui, ao invés de estarmos conectados lá, pessoalmente, com quem gosta da gente?

Enfim, fica a reflexão para que não sejamos como aquele pai, que perdeu a bela oportunidade de registrar, com os olhos, uma cena real, linda e pura que certamente não se repetirá. E mesmo que se repita de certa forma, não será a mesma. Cada momento é único, singular e especial.

 

Por Renata Stuart

Mais essência, por favor.

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Aprendi que as melhores coisas de se ouvir – e as mais verdadeiras- são ditas ao pé do ouvido, olho no olho, no reservado. A cada dia, observo a vida, as contradições entre palavras e atitude, e concluo: dispenso as falsas exposições. Eu, que sempre fui intensa e exagerada (daquelas que têm vontade de colocar a boca no mundo pra falar o que está sentindo), decidi que prefiro a simplicidade da essência.

Prefiro a leveza de um silêncio que diz tudo. Prefiro a sutileza de um sms exclusivo e inesperado (sim,   mesmo em tempos de whatsaapp. Por que não surpreender?). Dispenso a hipocrisia e as falsas declarações públicas. Status do dia? Cansada. Cansada dessa disputa pra ver quem é mais feliz. Cansada de quem se esquece do “ser” e se contenta com o “parecer ser”. Prefiro um gesto sincero ou uma prova de companheirismo no dia a dia do que uma marcação numa postagem que pouco reflete a realidade. E, acredite, sempre tem alguém que conhece a verdade além da web.

Quem nunca sentiu náusea quando abriu o facebook e se deparou com a foto de duas “amigas” que todo mundo sabe que falam mal uma da outra nas costas? Quem nunca lamentou a fotinha romântica do casal infiel? No fim das contas, a vida real tem mais a ver com “inbox” do que com “time line”. Tem mais a ver com o que você faz, não com o que você fala.

E não, nao vou parar de postar sobre a minha vida e não estou dizendo que alguém tem que fazer isso. Registros são sempre bons e compartilhar é algo inerente à era digital. Mas é preciso limite e bom senso. Limite porque nem tudo é publicável. Há quem não se permite viver sem um “share”. E bom senso pra entender que o que faz de vocês um casal feliz, uma família especial ou amigos inseparáveis não é o que está estampado nas mídias sociais. Isso é apenas um rótulo. O que importa mesmo está nos bastidores,  está nas entrelinhas, está no que ninguém vê. Está naquela cumplicidade e naquele sentimento  que é “compartilhado” (no sentido off line da palavra) só por vcs.

 

Por Renata Stuart