Sobre lugares onde deixamos um pouco de nós


Já faz um tempo que te deixei. Acho que desde esse dia, eu tentei ligar o piloto automático e não olhar muito pra trás. Tentei observar ao meu redor e curtir as coisas, pessoas, lugares e sensações das quais eu andava afastada a algum tempo. Decidi me reinventar, recomeçar e guardar você numa caixinha dentro do meu coração. Guardei bem, para não ficar remexendo e lembrando, afinal, a vida tem que seguir. Enfiei a cara na rotina, no trabalho e na correria. Mas, hoje, não resisti: eu abri essa caixinha e deu uma puta saudade de você. Sim, você, minha querida Dublin. Essa cidade que me acolheu de setembro de 2015 a janeiro de 2018. Sinto falta da leveza que é andar pela rua do Spire nos fins de tarde, contemplando os músicos e artistas sorridentes, o céu naquele tom laranja vívido (quando não está nublado por algum milagre) e, claro, a olhadinha básica nas vitrines para conferir se tem alguma oferta imperdível. Sem falar do início da noite na Grafton Street, com aquela luz charmosa e uma atmosfera única. Um chocolate quente, um malabarista de fogo dando show na esquina e pessoas indo e vindo, pessoas vivendo, sem pressa, sem estresse e sem serem escravas do trabalho. Subir aquela rua e dar de frente com o parque Stephen’s Green, meu favorito, era um prazer bobo e genuíno. Sinto falta daquele sol fake que, na real, não esquenta nada, mas renova as nossas energias de um jeito inexplicável. Sinto falta do vento gelado, que apesar de doer na pele, é meio que um afago da cidade, seu jeito estranho de demonstrar carinho. Sinto falta das pontes que compõem todo o rio Liffey de uma forma tão harmônica. Dos pássaros brancos, chamados “seagulls”, que estavam logo cedo dando bom dia no centro da cidade, quase sempre tentando roubar o croassant que tinha nas mãos. Sinto falta da sutil Ha’penny Bridge, que dava passagem para a incrível energia que emana do Temple bar. Ah, o Temple bar. Um lugar vivo, onde o frio é esquecido diante de tanto calor humano. Falando nele, sinto falta até do frio, que era combatido com louvor ao entrar em qualquer lugar fechado, graças aos heróis aquecedores (o que seria de nós sem eles?). Sinto falta da sensação de pedir uma pint, ainda de uniforme e exausta, após um dia longo de trabalho. Sinto falta de fazer amigos em qualquer esquina. Sinto falta da liberdade e da simplicidade. Mas, tudo bem, não se preocupe, querida, eu estou bem. Foi apenas uma nostalgia, sabe? Hoje, pela primeira vez desde que voltei, senti uma falta danada, e caiu a ficha do quão rápido tudo passou, do quanto você significou para mim e definiu parte do que sou hoje. Uma saudade gostosa, uma gratidão, um sentimento de privilégio por ter tido a oportunidade de viver nesta ilha incrível. Ah, Dublin, só quem te conhece – de verdade – sabe do que estou falando. 

Por Renata Stuart

 

Foto: Oliver Sherratt

Posted on by Renata Stuart in Reflexão

About Renata Stuart

Renata Stuart tem 27 anos e é mineira, de Belo Horizonte. Se não fosse comunicóloga, seria psicóloga. Romântica incurável, intensa e fã de pessoas, escreve para tentar entender o comportamento humano, os relacionamentos e a si mesma. Desistiu e chegou à conclusão de que a vida não se explica, se sente.

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