O amor e o desejo

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Muitos dizem que a felicidade só é encontrada quando o amor bate a nossa porta. Frio na barriga, coração batendo forte e todos aqueles clichês quando o assunto é amor. Concordo plenamente, se existe felicidade, sem o amor é que não há de ser.

Mas, será mesmo que o amor deixa de ser amor quando essas sensações gostosas se emudecem nos relacionamentos?

Li algo parecido no livro “Por que os homens amam as mulheres poderosas” (sim, eu li, é ótimo, e nada tem a ver com auto-ajuda). A autora diz que as pessoas, os homens em especial, estão sempre em busca de um objetivo mental. Ou seja, as mulheres não devem deixá-los 100% seguros porque, assim, o desejo acaba.

Anos de convivência, você o ama, ele te ama. Mas, então, por que será que ele não sente mais o acelerar do peito quando ouve a sua voz no telefone? Simples, porque você já é, de certa forma, dele. Só desejamos aquilo que não nos pertence.

Vejamos um exemplo. Você está doida para comprar aquela roupa linda que viu na vitrine e, quando compra, fica hiper feliz, quase em lua de mel com o modelito. Mas, algum tempo depois, você já se acostuma com a roupa e, embora  ainda goste dela, sente necessidade de comprar outra e outra, e assim vai. Só para ter aquela sensação gostosa pós-compra. (Tudo bem, o exemplo foi infeliz)

Então. Ele te ama e ainda te acha linda e atraente. Vocês adoram estar juntos. Mas aqueles efeitos colaterais que nos deixam abobados diante de alguém é prioridade de dois corações que ainda estão se conhecendo, sendo conquistados..Que ainda não se pertencem, que ainda não conviveram dias a fio. Calma lá, isso não quer dizer que um de vocês deva sair atrás de “novas roupas” por aí! Não me entendam mal. O que quero dizer é: O amor possui fases  e a fase da conquista é apenas a primeira delas.

Ingênuo é aquele que embarca em uma traição em busca de sentir novamente o coração palpitante. Adivinhe: Mais cedo ou mais tarde, as borboletas no estômago vão desaparecer novamente.  E essa busca será incessante e inútil. Falta de romantismo? Não, apenas realismo. Acredite, romântica como sou, também custei a entender isso.

Já dizia o Cazuza, eu quero a sorte de um amor tranqüilo. Desejos passam, o amor fica. E, este, por sua vez, é paciente, puro, fiel, compreensivo e, acima de tudo, maduro.

Cabo de Guerra

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Já parou para pensar em como o mundo é repleto de contrastes? Contrastes de ideias, opiniões, personalidades, poder e tantos outros. Mas, para mim, o maior dos contrastes é o de interesses.

Os moradores das cidades destruídas pelas enchentes suplicam para que a chuva cesse. Por outro lado, aquele que vive da plantação, ou até mesmo o vendedor de guarda-chuvas, torcem para que a água continue.

As ruas das grandes cidades já não têm lugar para tantos veículos. As pessoas esperam por leis que pare esse crescimento absurdo. No entanto, os donos de concessionárias querem vender mais e mais carros.

Queremos um mundo sem pobreza. Mas, por mais chocante que seja, algumas correntes de pensamento afirmam que a pobreza é necessária para o equilíbrio do planeta, para o sustento do capitalismo.

As mulheres desejam ser aceitas como são, sem opressão pelos padrões de beleza impostos, mas os cirurgiões plásticos precisam faturar. As pessoas querem a cura definitiva da gripe, mas, ao mesmo tempo, as indústrias farmacêuticas não estão tão preocupadas com isso.

Pessoas querem ser libertas da onda de depressão que assola o mundo, mas os psicólogos e psiquiatras querem trabalho. A mãe ora a Deus para que o filho largue as drogas, e o traficante quer viciá-lo a qualquer custo.

Queremos ser mais econômicos. E a publicidade nos bombardeia 24 horas por dia na tentativa de nos seduzir ao consumo. Não gostamos de ter que usar o cheque especial, já o banco está sempre disposto a nos oferecê-lo.

Sonhamos com governantes íntegros, não corruptos. E os governantes só pensam em acumular patrimônios para suas famílias. Os professores reivindicam aumento salarial e, adivinha, os vereadores também.

Não aguentamos mais assistir a tantas tragédias, mas os jornais sensacionalistas sobrevivem com a venda dessas notícias.

E assim os homens seguem seu percurso. Todos cegos pelas próprias aspirações. É como um jogo de cabo de guerra, onde cada lado defende, unicamente, o seu interesse. E, neste jogo, quem vence é o mais forte.

Claro, alguns jogadores passam por cima de qualquer escrúpulo e, sem o mínimo de culpa, fazem de tudo (tudo mesmo!)para puxar a corda para seu lado. Já outros, preferem vencer a partida de forma mais árdua, mas também mais limpa, digna e justa. Cabe a nós decidirmos em qual lado da corda queremos estar.

O primeiro passo

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Um novo ano quase sempre vem acompanhado de um friozinho na barriga e uma boa dose de expectativa. A sensação é como se muitas coisas fossem mudar, por um simples número que avança no calendário.  Mas, na verdade nua e crua, é apenas o tempo passando, fazendo seu serviço.  É claro que, como disse no post página em branco, um novo ano é a chance de usar o aprendizado do ano anterior para se escrever melhor o novo capítulo que se abre, mas cada mudança a seu tempo.

Não adianta alimentar uma ansiedade desesperadora de que tudo irá se transformar nesse percurso de 365 dias. É preciso enxergar adiante e delimitar pequenos desafios menores para, a longo prazo, alçar vôos maiores.

Se sua ideia é emagrecer alguns quiilinhos, não adianta iniciar o ano se privando de tudo o que tem de mais gostoso. É necessário dar o primeiro passo. Reduzir os alimentos mais gordurosos, adquirir, aos poucos, hábitos mais saudáveis e criar objetivos curtos, para que o desânimo não interrompa o alvo final. ( É o que estou tentando fazer..rs)

Se sua meta é viver uma experiência de auto-aprendizado, talvez tornando-se alguém mais tolerante ou mais gentil, comece pelos pequenos gestos. Não adianta forçar um personagem e, de um dia para o outro, se transformar na boa samaritana, se seu apelido sempre foi Tati Quebra Barraco.

Se escrever um livro é sua meta do ano, não adianta sair escrevendo ligeiramente sobre tudo o que vê na frente.  Comece com o primeiro passo. Estipule horários para se dedicar a esta atividade e, com calma, deixe as palavras dominarem, espontaneamente, o movimento de seus dedos.

Quer um ano de mais leitura? Não adianta sair comprando uma pilha de livros para amontoá-los todos na estante. E, mesmo que faça isso, não tenha pressa em finalizá-los. Eles estarão todos ali à sua espera, desfrute de cada um com prazer e tranqüilidade.

Respire. Não tente atropelar o tempo. Acredito que, para todo e qualquer plano que tenhamos para 2012, é fundamental enxergar o primeiro passo e focar naquilo que nos é mais acessível hoje e agora.

É melhor ir devagar, armazenando energias, do que gastar toda a pilha antes de chegar do outro lado do rio. No fim das contas, seu caderninho de “Planos para o ano novo” não terá sido um projeto abandonado no meio da correnteza.

E você? Qual o primeiro passo para 2012?

Palavra do dia – Marina Colasanti

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Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez vai pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti (Asmara26 de setembro de 1937) é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia. Ainda criança sua família voltou para a Itália de onde emigram para o Brasil com a eclosão da Segunda Guerra Mundial. No Brasil, estudou Belas-Artes e trabalhou como jornalista, tendo ainda traduzido importantes textos da literatura italiana. Como escritora, publicou 33 livros, entre contos, poesia, prosa, literatura infantil e infanto-juvenil. Uma ideia toda azul é um livro seu de contos que ganhou o prêmio O Melhor para o Jovem, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Em 2010, recebeu o Prêmio Jabuti pelo livro Passageira em trânsito.[1]

Nunca x Sempre

Posted on by Renata Stuart in Reflexão, Textos de amor | 4 Comments

Se há duas palavras que deveriam ser excluídas, ou ao menos evitadas, em nosso vocabulário, são Nunca e Sempre. Ambas fazem promessas com relação a um futuro sem a menor garantia que serão cumpridas, já que o tempo e os acontecimentos não estão na palma de nossas mãos.

Quando você diz que nunca irá perdoar alguém você está assegurando que, em tempo algum, será tocado pelo perdão ou pela saudade. O nunca, de certa forma, te proíbe de voltar atrás. O nunca nos faz pagar língua até nas coisas mais banais. Quando você jura para si mesmo que nunca irá comer suflê de repolho você não imagina que, dentro de alguns meses, estará saboreando essa ‘delícia’ justo no primeiro jantar na casa do seu namorado. Quando você afirmou com toda a convicção do mundo que nunca dançaria pagode ou funk você não podia prever que faria isso num nível 3 de álcool. Enfim, quando você disse que nunca esqueceria o Dudu que conheceu em Guarapari, você não sabia que, mais tarde, ele se tornaria só mais um romance de carnaval. Quando você disse que nunca colocaria os pés numa prisão, você não esperava ter de pagar a fiança do seu filho um dia.

Por outro lado, quando você suspirou dizendo que amaria as músicas do KLB para todo o sempre, você não fazia idéia do que era gosto musical. Quando você afirmava que sempre seria a mesma, você não contava que as circunstâncias da vida te fariam mudar tanto. Quando você prometeu que sempre moraria na sua pacata cidade natal, você não sonhava em receber uma proposta de trabalho irrecusável na Flórida. Quando você se gabou dizendo que sempre tem humildade para pedir desculpas, você não sabia que o orgulho um dia te invadiria.

Assim são os sempres e os nuncas da vida. Por vezes, nos fazem cair em contradições….por vezes, nos fazem cometer atos que, em outra época, reprenderíamos. Ambas são palavras fortes que, embora não pensemos, deveriam ser ditas com mais cautela.

O nunca é soberbo, pretensioso, autoritário. Já o sempre é vago, costuma soar falso e, ao mesmo tempo, é ilusório.

Mas, sejamos flexíveis. Existe algo melhor que ouvir de quem amamos um “Nunca vou te abandonar” ou um “Sempre estarei ao seu lado”?

Mesmo sabendo que essas palavras são meras promessas que podem ser desfeitas pelas armadilhas da vida, não cansamos de proferí-las e, muito menos, de ouví-las. A sensação é de proteção, de segurança, de acolhimento. Neste caso, o conforto momentâneo das palavras se torna mais importante que qualquer pretensão. Que se dane o amanhã, sempre vale à pena fazer promessas para quem amamos. Nem que seja só por hoje.

Palavra do dia

Posted on by Renata Stuart in Entre Aspas | 1 Comment

Estou abrindo a tag #palavradodia. Nessa tag, colocarei uma palavra (pode ser um texto qualquer, uma crônica, uma poesia, uma frase, enfim) de algum autor, renomado ou não. A palavra de hoje é uma crônica linda, que retirei do livro “Non – Stop – Crônicas do Cotidiano” da minha autora preferida, Martha Medeiros. Espero que vocês gostem e, principalmente, absorvam as palavras dela. Que essa leitura possa ser algo que, no fim do dia, terá valido a pena.

Antes do dia partir – Martha Medeiros

Paulo Mendes Campos, em uma de suas crônicas reunidas no livro “O Amor Acaba”, diz que devemos nos empenhar em não deixar o dia partir inutilmente.Eu tenho, há anos, isso como lema.

É pieguice, mas antes de dormir, quando o dia que passou está dando o prefixo e saindo do ar, eu penso: o que valeu a pena hoje? Sempre tem alguma coisa.
Uma proposta de trabalho. Um telefonema. Um filme. Um corte de cabelo que deu certo.Até uma briga pode ter sido útil, caso tenha iluminado o que andava escuro dentro da gente.

Já para algumas pessoas, ganhar o dia é ganhar mesmo: ganhar um aumento, ganhar na loteria, ganhar um pedido de casamento, ganhar uma licitação, ganhar uma partida.Mas para quem valoriza apenas as megavitórias, sobram centenas de outros dias em que, aparentemente, nada acontece, e geralmente são essas pessoas que vivem dizendo que a vida não é boa, e seguem cultivando sua angústia existencial com carinho e uísque, mesmo já tendo seu superapartamento, sua bela esposa, seu carro do ano e um salário aditivado.

Nas últimas semanas, meus dias foram salvos por detalhes.Uma segunda-feira valeu por um programa de rádio que fez um tributo aos Beatles e que me arrepiou, me transportou para uma época legal da vida, me fez querer dividir aquele momento com pessoas que são importantes pra mim. Na terça, meu dia não foi em vão porque uma pessoa que amo muito recebeu um diagnóstico positivo de uma doença que poderia ser mais séria.Na quarta, o dia foi ganho porque o aluno de uma escola me pediu para tirar uma foto com ele. Na quinta, uma amiga que eu não via há meses ligou me convidando para almoçar.Na sexta, o dia não partiu inutilmente, só por causa de um cachorro-quente.E assim correm os dias, presenteando a gente com uma música, um crepúsculo, um instante especial que acaba compensando 24 horas banais.
Claro que tem dias que não servem pra nada, dias em que ninguém nos surpreende, o trabalho não rende e as horas se arrastam melancólicas, sem falar naqueles dias em que tudo dá errado: batemos o carro, perdemos um cliente e o encontro da noite é desmarcado.Pois estou pra dizer que até a tristeza pode tornar um dia especial, só que não ficaremos sabendo disso na hora, e sim lá adiante, naquele lugar chamado futuro, onde tudo se justifica.

É muita condescendência com o cotidiano, eu sei, mas não deixar o dia de hoje partir inutilmente é o único meio de a gente aguardar com entusiasmo o dia de amanhã…

Página em branco

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Ouvi em algum lugar que um novo ano é como uma página em branco. Uma página pronta para ser escrita. Um aglomerado de linhas à espera de nossa singela atitude de pegar o lápis e começar a escrever, mesmo que inconscientemente, mais um capítulo de nossa vida…

Embora seja impossível voltar a página anterior e mudar o que já foi rabiscado, essa nova página que se abre é uma chance de escrever melhor, com mais sabedoria, gastando menos lápis, menos esforço, evitando o uso do corretivo, que, afinal, nada mais é que uma tentativa inútil de apagar o que não tem volta.

Um novo ano é a chance que temos de converter os erros do passado em um rascunho para escrever o novo ano que se anuncia, de usar as conquistas e as alegrias acumuladas para recarregar a tinta da caneta e de fazer dos tropeços e das dificuldades um apontador para as pontas que irão se quebrar no caminho da escrita…

Que saibamos aproveitar o ano que se passou como aprendizado para esse novo ano que se faz presente.

Que em 2012 você escreva lindas páginas!
Feliz ano novo!

Tudo ainda está aqui.

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O mundo ainda existe. Eu achei que ele ia desabar quando você deixou de fazer parte dele, mas, por incrível que pareça, ele ainda sobrevive. O céu também. Mais cinzento aos meus olhos, mas ainda está lá quando olho pra cima. Nossa casa ainda está aqui, no mesmo endereço, do mesmo jeito. A aparência interna está um pouco diferente, fizemos algumas reformas, (inclusive agora tem o portão eletrônico que você tanto queria… lembra como era ruim ter de sair do carro para abrir? Rs) mas não nos mudamos. Apesar de todos os cantos terem uma lembrança sua, eu prefiro isso a ter que me mudar para uma casa onde você não esteve, não pisou, não dividiu momentos comigo. Suas roupas, nem todas estão mais aqui. Demos algumas para familiares, amigos ou para necessitados. Mas ainda temos algumas, aquelas que você gostava mais, por exemplo. Sou mórbida mesmo, aquele seu blusão roxo eu guardo comigo, lembro até da última vez que você o usou e nunca o lavamos. Enfim, seu quarto ainda está aqui, bom, na verdade não mais com suas coisas, doía muito ir ao banheiro de madrugada, passar pela sua porta e me dar conta de que você não dormia mais na sua cama, intacta, arrumadinha demais. Mas ele ainda está aqui, sempre será seu quartinho. As pessoas ainda estão ai, algumas se foram depois de você, como a nossa bisavó e nossa avó, mas a maioria está aí, levando suas vidas em frente, trabalhando, estudando, batalhando. Aliás, não temos escolhas, temos? A vida não nos dá a opção de parar, ela exige movimento. Confesso que, para a maioria das pessoas, tudo permanece exatamente do mesmo jeito, a vida delas está, digamos, normal, plena. Não que elas não te amem como nós, era impossível não amar você, mas a dor não deixou cicatrizes nelas como deixou em nós, aqui de casa. Esse buraco só é aberto no peito de quem esteve a vida inteira ao seu lado e jurava que duraria para sempre. Os restaurantes que você gosta, os filmes, os jogos, os brinquedos, seus amigos, tudo está aqui ainda. Seus amigos estão crescendo e eu perdi a referência, o parâmetro para saber a idade deles. Me assustei quando soube que o baile de formatura, que também seria o seu, aconteceu. Me toquei que hoje você já seria um homem e não mais aquele garoto que sempre vou ter em mente. Tudo está, aparentemente, normal. Até as luzes de natal estão aí, firme e forte pela cidade. As coisas que nos deixavam felizes ainda existem, mas perderam aquele sabor, sabe? Aquela sensação de vida leve, tranqüila, divertida… quando tudo o que te falta são apenas coisas e não pessoas, não você. Enfim, como eu venho dizendo, quase tudo ainda está aqui. Eu, afinal, percebi que as coisas não se desmoronam quando a gente pensa que vão desmoronar, não acabam quando a gente quer que acabem, elas perdem o sentido que tinham, claro, mas resistem a essas tempestades da vida. A força que acreditamos que não temos (e não temos mesmo) surge de algum lugar, como se a única opção fosse segurá-la e, então, a gente se segura nela e vai, meio que por impulso. Talvez fingindo que você está apenas fazendo uma viagem ou algo do tipo. Só que, às vezes, essa mesma força sai de cena, nos fazendo desativar o piloto automático e se entregar a fraqueza. Mas, depois de um tempo, ela resolve voltar para novamente nos dar a bengala que sustenta a caminhada. Eu também estou aqui, embora uma parte tenha ido com você. Embora sem aquela ‘eu’ inocente, sonhadora e cheia de manias infantis que só você entendia. A ‘eu’ de hoje é mais realista, pé no chão e insegura com relação à vida, vida que se mostrou muito frágil com a sua partida repentina. Mas essa EU, que ainda está aqui, é a mesma irmã, fã, admiradora, puxa-saco, que nutre e sempre vai nutrir um amor imensurável por você. Há momentos que eu sinto que minha vida é um quebra-cabeça que nunca será completado. Mesmo que tudo daqui em diante dê certo, mesmo que eu consiga encaixar todas as peças, ele nunca será finalizado, sempre vai faltar a sua peça. A sua presença. Vai faltar você. E essa falta não vai passar, eu sei, só mudar. Como diz a sábia Martha Medeiros, o tempo não cura nada, só tira o incurável do centro das atenções….

O medo da mudança

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Mudança. Essa palavra nem sempre nos agrada muito, talvez seja porque toda mudança pressupõe perdas. Seja os amigos ou vizinhos que você perde quando muda de endereço, ou quando muda de emprego. Por mais que a mudança traga coisas boas e novas experiências, ela sempre significará perder outras. É inevitável.

Temos a tendência em buscar estabilidade, calmaria. A mudança sempre gera uma sensação de insegurança, porque tudo que é novo é desconhecido. Já pensou em quantos relacionamentos são mantidos (“empurrados”) pelo simples medo da mudança? E se eu me arrepender? E se eu não encontrar alguém melhor? E se? E se? No entanto, muitas perguntas só são respondidas com a temida mudança. Sem ela, tudo se torna mera especulação. Só arriscando se sabe as conseqüências de nossos atos.

 

 

Vivemos na esperança de que as coisas mudem para melhor, sendo que, muitas vezes, o único modo de as coisas realmente mudarem é se nós mudarmos primeiro. Há pessoas que têm a pretensão de mudar o mundo, mas não buscam mudar a si mesmo, mudar para melhor. Simplesmente dizem de forma autoritária “Sou assim. Não há o que fazer. Vou morrer assim” e impõem “Me aceite como sou”. Ok. As pessoas não são iguais (ainda bem!), e temos que enxergar seus defeitos apenas como características diferentes, do contrário sempre seremos decepcionados. Mas por que temos que aceitar tudo do jeito que é? Por que não tentar mudar? Mudar é preciso.

O tempo nos muda, nos amadurece, nos mostra tantas coisas que antes eram embaçadas ou ofuscadas. Um amigo (acho que posso chamá-lo assim) escreveu certo dia: “Antes tarde do que mais tarde. Se não começou a reforma na sua vida, não deixe para amanhã. É agora, é a partir desse minuto. As mudanças não são instantâneas, mas a iniciativa tem de ser imediata”.

E é isso que venho compartilhar aqui. Não tenha medo da reforma. Se reinvente. Inove. Ouse. Recomece. Deixe as mudanças falarem… A vida precisa delas. Seja no modo de agir, nas novas oportunidades que a vida te oferece, na visão de mundo, experimente mudar! Pequenas iniciativas podem te levar a grandes mudanças. E se a mudança mostrar que quer se impor, não fuja dela. O que parece ruim hoje, pode ser responsável por algo maravilhoso amanhã. E mesmo que você se arrependa, permita-se errar. A vida tem disso. Se você não arriscar, não saberá nunca.

Estabilidade é bom, claro. Mas não querer correr riscos nunca, pode significar comodismo, estagnação. Como disse esse meu sábio amigo, “o próprio medo da reforma pode significar a necessidade dela”.
Sendo assim, quem busca o melhor, tem que se sujeitar aos riscos e fazer as escolhas, mesmo que elas signifiquem perdas. Afinal, ninguém pode ter tudo na vida, né? Quem fica preso no passado ou no presente, com medo de mudar, acaba perdendo o futuro.

Por isso, meu conselho é: Ouse mudar! Não tenha medo de errar ao fazer suas escolhas. Aliás, se quer mais um conselho, busque Deus para te auxiliar nelas, só ele nos mostra o que é melhor para nós.

“E, se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada” (Tiago 1:5)

Pequenas coisas, feitas aos poucos, podem significar grandes mudanças. Segue um vídeo que mostra algumas dessas mudanças que fazem a diferença.
É uma propaganda da Fiat comemorando seus 25 anos.

Bom feriado!

Vida imperfeita

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Sua vida não é tão perfeita como você gostaria que fosse ou quanto você tenta aparentar que seja. Seus dias não são repletos de sorrisos, seus sonhos nem sempre se tornarão realidade. Seu cabelo não é do jeito que você gostaria e sua altura e peso também não. Haverá dias vazios, em que a tristeza vem até mesmo sem motivo aparente, e embora a alegria chegue no dia seguinte, esses dias tristes sempre voltam…

Seu namoro não é o conto de fadas que você sonhou que seria quando era adolescente, aliás, conto de fadas não existem. Seu salário não é grandes coisas e, mesmo que você ame o que faz, tem dias que levantar é uma tortura. Você não tem aquela roupa bacana que viu na vitrine, nem aquele carro do ano.

Você também não dorme a quantidade de horas que gostaria. Tem dias que o mau humor toma conta e você só sabe resmungar. A paciência se esgota e se converte em atos de antipatia ou até socos no computador lento. O estresse no trânsito se mantém durante o resto do dia.

Então, quando você deixa de olhar apenas para si mesmo e consegue enxergar o que existe ao redor, você vê o morador de rua mexendo no lixo e tomando o restinho de iogurte que resta no pote, vê o paraplégico pegando o ônibus para trabalhar sozinho e sorridente. Vê a criança descalça vendendo balas, e vê um aviso de pessoas que estão precisando de um transplante ou doação de sangue … suas vidas se resumem simplesmente em lutar para sobreviver.

E você volta a olhar para si mesma. Envergonhada e se sentindo uma tremenda egoísta, se preocupando com sua gordurinha extra, reclamando do download lento, da sua noite mal dormida, do seu guarda-roupa desatualizado ou da sua conta bancária.

Nesse momento, nossas reclamações se tornam pó e a gente começa a ver tudo de bom e todas as bênçãos presentes em nossas vidas. Que não são poucas. A pele corada e a saúde forte, a família, os pais amáveis e trabalhadores, os movimentos de todos os membros, a cama quente, a geladeira farta, a visão e todos os outros sentidos, a sabedoria e a oportunidade de poder adquirir mais e mais conhecimento. A oportunidade de respirar ar livre, e não estar preso em quatro paredes numa cama de hospital.

Temos tudo e não sabemos. Ou sabemos, mas esquecemos. Ou não sabemos mesmo, até perder uma dessas coisas.
Desejo que Deus me torne uma pessoa melhor a cada dia, para que eu tenha consciência e dê valor a tudo que tenho.

Se você não tiver tempo para ir a igreja ou para conversar com Deus antes de dormir, ou se não acreditar que orações funcionem, diga apenas uma palavra: “OBRIGADA”.