Coragem embriagada

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Algumas pessoas têm uma relação no mínimo estranha com o álcool. Eu bebo socialmente, gosto de sentar para conversar e beber com os amigos. Seja vinho, cerveja ou destilados, o álcool parece deixar a alma mais leve, o ambiente mais descontraído, e as preocupações mais distantes. (tudo ilusão).  Sem hipocrisia,  já exagerei na dose sem perceber que estava no meu limite e, sim, dei vexame. Quem nunca? Rss..Não, essa não é uma reflexão sobre alcoolismo. Pudera eu falar sobre esse problema sério que atinge boa parte da população. O fato que me assusta e me aflige é outro: há quem precise dessa substância no sangue para simplesmente SER. Ser em essência, de dentro pra fora, despir a alma, acender a luz e deixar visível o que quase ninguém vê.

Quem me conhece sabe que nunca precisei do álcool para colocar pra fora o que me incomoda.  Sou totalmente a favor de um mundo mais franco. Se estou chateada com você, vou te procurar, sóbria, para conversar e soltar o verbo. OK, não vou entrar nesse mérito, não é tão fácil ser assim e eu não espero que todos sejam. Ninguém é igual a ninguém. Uns preferem guardar o que sentem lá dentro e deixar o tempo consertar (colocar a poeira embaixo do tapete, em outras palavras). O problema é quando a pessoa condiciona certos momentos ao álcool. Já chorei e pulei de alegria e até briguei bêbada, mas não preciso estar bêbada para chorar, pular de alegria e brigar. Uma coisa não depende da outra. É preciso se arriscar mais, se sujeitar a sentir mais, se entregar mais, sem a tal desculpa “eu tava bêbado, não lembro”.

Sabe aquele fulaninho que só sabe se divertir bebendo? Ou aquele que só desabafa e se entrega aos problemas quando enche a cara? E pior, aquele que só é verdadeiramente verdadeiro (a redundância é proposital) depois de uns bons engradados? Já vi gente que é só sorrisos e elogios em dias “normais”. Basta se entregar à bebida e começam as críticas, os dedos apontando falhas e a boca soltando mágoas há tempo guardadas. E até a inveja, às vezes camuflada no dia a dia, dá às caras e se mostra depois de uns drinks.  Sou do seguinte lema: tem algo te perturbando, remoendo, machucando? Respire fundo, vá em frente e resolva isso de cara limpa, não há nada mais covarde do que usar a bebida de escudo.

Da mesma forma, há quem seja frio e indiferente durante os dias de sobriedade e, basta alguns goles de uma cerveja barata, para abrir o coração e dizer o quanto ama ou precisa de alguém. Se amanhã o arrependimento bater, é mais fácil colocar a culpa nos efeitos colaterais da bebida…”foi papo de bêbado, liga não”. Nada contra quem distribui “eu te amo´s” depois de umas taças de vinho, eu mesma já fiz isso. Mas é preciso distribuir ‘eu te amo’ a quem nos importa, todos os dias, nem sempre com palavras, mas com atitudes, gestos, sorrisos.

Pois é.  O álcool diminui a censura, arranca máscaras, revela sentimentos.  Acho triste quem precise dele para se mergulhar nesse imenso mar de sensações que é a vida. A coragem embriagada vem fácil. Quero é ver a transparência sóbria, que nos coloca de frente – e por inteiro – com as dores e as delícias do viver.

Independente do que for, o bom mesmo é  s-e-n-t-i-r,  ao pé da letra, nos fortalecendo com aquilo que nos machuca e nos emocionando com o que nos faz bem. Por fim, concluo com um pensamento sábio que li por ai:  tem tanta gente com medo – da dor e da felicidade – que prefere viver anestesiado. 

Por Renata Stuart

Uma crônica em dez minutos

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Me propus a fazer um texto – que nem sei se posso chamar de crônica – em apenas dez minutos. É exatamente o tempo que eu tenho antes de ter que tomar o banho e seguir para os afazeres do dia. Sobre o que falar em dez minutos? Tudo é tão complexo, tão difícil de resumir, a vida é tão extensa e, ao mesmo tempo, tão breve. Agora mesmo, li uma frase – dessas que o povo compartilha no facebook – que ficou pipocando em minha mente. É tanta informação inútil compartilhada nas redes sociais que quando uma nos chama atenção entre tantas é porque foi realmente merecido. Essa me chamou. E dizia, em inglês, “Algumas pessoas sentem a chuva. Outras apenas se molham.” Num primeiro instante, fala sobre a chuva, óbvio. Mas a metáfora inserida nessa frase é de uma sabedoria sem tamanho. Uma verdadeira metáfora sobre a vida. Algumas pessoas trabalham com prazer, outras apenas trabalham. Algumas pessoas vivem de corpo e alma, outras apenas vivem. Algumas pessoas se doam e conquistam amigos para vida toda, algumas se fecham tanto que se tornam apenas “amigos”. Algumas pessoas dão sorrisos abertos sem um motivo aparente, outras apenas sorriem socialmente. Algumas pessoas vivem 24horas ativas em prol de se sentir bem e contagiar quem está por perto, algumas simplesmente deixam o dia passar, no piloto automático….Algumas pessoas correm atrás  de soluções, de mudanças, outras apenas sabem fazer reclamações. Algumas pessoas vivem diariamente em busca de realizar os próprios sonhos, outras simplesmente sonham. Algumas pessoas se revoltam com a vida de vez em quando e choram litros, outras não choram, não se expressam e “engolem” os impulsos da vida. Algumas pessoas confiam inteiramente ainda que isso seja arriscado nos dias de hoje, outras vivem com o pé atrás, com desconfiança até da própria sombra. Enfim, eu poderia ficar aqui até amanhã fazendo essa brincadeirinha…Mas e você? Tem sentido a chuva ou apenas se deixado molhar?

Por Renata Stuart

Entre Aspas – Martha Medeiros

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Trago hoje uma crônica da minha cronista preferida: Martha Medeiros. Essa eu li no livro ‘Doidas e Santas”, que por sinal é maravilhoso. A obra é uma mistura de informação, reflexão, humor, sentimento e devaneios. Amei!

Os Ricos Pobres

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Anos atrás escrevi sobre um apresentador de televisão que ganhava um milhão de reais por mês e que em entrevista vangloriava-se de nunca ter lido um livro na vida. Classifiquei-o imediatamente como uma pessoa pobre.
Agora leio uma declaração do publicitário Washington Olivetto em que ele fala sobre isso de forma exemplar. Ele diz que há no mundo os ricos-ricos (que têm dinheiro e têm cultura), os pobres-ricos (que não têm dinheiro, mas são agitadores intelectuais, possuem antenas que captam boas e novas idéias) e os ricos-pobres, que são a pior espécie: têm dinheiro, mas não gastam um único tostão da sua fortuna em livrarias, museus ou galerias de arte, apenas torram em futilidades e propagam a ignorância e a grosseria.

Os ricos-ricos movimentam a economia gastando em cultura, educação e viagens, e com isso propagam o que conhecem e divulgam bons hábitos. Os pobres-ricos não têm saldo invejável no banco, mas são criativos, efervescentes, abertos. A riqueza destes dois grupos está na qualidade da informação que possuem, na sua curiosidade, na inteligência que cultivam e passam adiante. São estes dois grupos que fazem com que uma nação se desenvolva.

Infelizmente, são os dois grupos menos representativos da sociedade brasileira. O que temos aqui, em maior número, é o grupo que Olivetto não mencionou, os pobres-pobres, que devido ao baixíssimo poder aquisitivo e quase inexistente acesso à cultura, infelizmente não ganham, não gastam, não aprendem e não ensinam: ficam à margem, feito zumbis.

E temos os ricos-pobres, que têm o bolso cheio e poderiam ajudar a fazer deste país um lugar que mereça ser chamado de civilizado, mas que nada: eles só propagam atraso, só propagam arrogância, só propagam sua pobreza de espírito.
Exemplos? Vou começar por uma cena que testemunhei semana passada. Estava dirigindo quando o sinal fechou. Parei atrás de um Audi preto do ano. Carrão. Dentro, um sujeito de terno e gravata que, cheio de si, não teve dúvida: abriu o vidro automático, amassou uma embalagem de cigarro vazia e a jogou pela janela no meio da rua, como se o asfalto fosse uma lixeira pública.O Audi é só um disfarce que ele pôde comprar, no fundo é um pobretão que só tem a oferecer sua miséria existencial.

Os ricos-pobres não têm verniz, não têm sensibilidade, não têm alcance para ir além do óbvio. Só tem dinheiro. Os ricos-pobres pedem no restaurante o vinho mais caro e tratam o garçom com desdém, vestem-se de Prada e sentam com as pernas abertas, viajam para Paris e não sabem quem foi Degas ou Monet, possuem tevês de plasma em todos os aposentos da casa e só assistem a programas de auditório, mandam o filho pra Disney e nunca foram a uma reunião da escola. E, claro, dirigem um Audi e jogam lixo pela janela. Uma esmolinha pra eles, pelo amor de Deus.

O Brasil tem saída se deixar de ser preconceituoso com os rico-ricos (que ganham dinheiro honestamente e sabem que ele serve não só para proporcionar conforto, mas também para promover o conhecimento) e se valorizar os pobres-ricos, que são aqueles inúmeros indivíduos que fazem malabarismo para sobreviver, mas, por outro lado, são interessados em teatro, música, cinema, literatura, moda, esportes, gastronomia, tecnologia e, principalmente, interessados nos outros seres humanos, fazendo da sua cidade um lugar desafiante e empolgante.

É este o luxo de que precisamos, porque luxo é ter recursos para melhorar o mundo que nos coube, e recurso não é só money: é atitude e informação.

Por Martha Medeiros

Prazer, reflexão e direção.

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Mais um dia comum se iniciava. A manhã passou voando e ela, como sempre, não teve tempo de resolver todas as coisas que tinha em mente. Estava mais uma vez almoçando às pressas para ir para o trabalho. Escovou os dentes, jogou uma fruta dentro da bolsa e pegou as chaves, da casa e do carro. Joga a bolsa no banco do passageiro, se ajeita, coloca o cinto, fecha os vidros e liga o som. Parece bobagem, mas o simples percurso da casa ao trabalho era para ela um lazer. Como amava dirigir. Ali dentro era sua bolha, seu lugar de “repouso” em movimento, seu canto de reflexão, mas sem perder a concentração. Com seu CD favorito tocando, ela esquece da vida.  Um momento dela e dela mesmo, hora sagrada. No meio da multidão no trânsito e, ao mesmo, tempo, sozinha, isolada, reservada por trás dos vidros fechados do carro. Enquanto espera o sinal ficar verde, passa o batom e, se der tempo, o lápis de olho. Se não der, ela espera pelo próximo. Às vezes, desliga o ar condicionado, abaixo os vidros e deixa o vento bater em seu cabelo solto. Piegas, sim, mas aquela sensação de liberdade era a melhor coisa do dia para ela… A liberdade de poder ir e vir. O dia podia ser um tédio, mil problemas para serem resolvidos, mas, durante o volante, quem comandava era a paz de espírito, a harmonia interior. As pessoas deviam pensar, que menina boba, tudo isso porque está dirigindo? Todo mundo dirige e não ficam mais felizes por isso.Mas ela não dirigia só por necessidade de locomoção, também dirigia por prazer. Talvez porque seu signo lhe impunha uma certa vontade de comandar, de liderar, de se sentir independente…Na verdade, não estava comandando nada, apenas o próprio caminho, e isso lhe bastava.  Nem o trânsito intenso e os “motoristas de domingo”, sem educação e desprovidos de respeito, tiravam esse momento dela.  Tudo bem, ela também não era  assim tão boa samaritana ao volante, de vez em quando se irritava com algum indivíduo imprudente que ultrapassava sem dar seta, ou um motoqueiro com poder de invisibilidade que surge cortando pela direita.Às vezes soltava um palavrão para si mesma e resmungava, mas depois ria sozinha, imaginando como a pressa parece ser a única coisa que move todos … Pensando, romanticamente, que as pessoas deviam ser movidas pelo amor, pelo sorrisos, pelos instantes inesquecíveis, pelo prazer . “F****. Que o trabalho espere, que a reunião aguarde, que o horário com o médico fique para quando der”. E assim estacionava o carro com seus pensamentos mirabolantes. No fim do dia, depois de muito trabalho, mais uma vez era hora de se sentar consigo mesma e refletir em movimento, sua terapia em monólogo mental. Desta vez, refletia sobre o dia que se passou, sobre o que fez, o que não fez e o que ficou para amanhã.

Mais uma vez, sob o volante, ela iniciava sua segunda pausa do dia, seu break, seu freio, seu momento particular, a hora de quebrar a agitação e parar! Só que acelerando…

Por Renata Stuart

A gaiola da vida

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Se há um obstáculo para a verdadeira liberdade, esse obstáculo é o medo. O medo da mudança. O medo de trocar o certo pelo duvidoso. O medo de largar o que nos parece “melhor” – ou mais certo – no momento, para buscar algo que nos instiga por dentro, algo que ainda não é concreto, mas que vive e respira em nossa mente.

Só o verdadeiro QUERER – aquele que lateja e incomoda – nos torna capaz de abandonar a estabilidade, a calmaria de uma vida dentro dos conformes – programada para dar certo – e correr atrás de sustentar os desejos mais interiores, aqueles que parecem mais absurdos, mais insanos e utópicos.

Constantemente, pensamos “Mas e se nada der certo? E se eu me arrepender? E se tudo for em vão? Terei perdido tempo à toa, sem sequer sair do lugar”.  Sendo que, na verdade, não sair do lugar é justamente o fato de não tentar, não arriscar, não se sujeitar ao erro. Não ser fiel aos nossos instintos, às nossas vontades, aos nossos quereres, mesmo que esses mudem amanhã, quando o sol nascer.

Se se arrepender, volte e recomece. Se errar, tente de novo. E, se de repente, mudar de opinião, não se julgue por isso. Por que enganar a si mesmo? Quem disse que o certo e esperado é sempre manter nossas escolhas até o fim?  É preciso ser forte e bravio para ter coragem de assumir a tal da metamorfose ambulante. Com medo de parecer imprudente, frívolo e inconstante, muitas pessoas “mantêm” suas escolhas até o fim, ainda que, no fundo, essas já não sejam verdades em essência.

O fato é: a necessidade de aparentar alguém sério e certo do que quer para o resto da vida tem valido mais do que satisfazer o próprio eu. Sim, é de se admirar quando alguém é cheio de si, que mantém firmes as escolhas que fez até o fim, sem ao menos trepidar. É admirável, mas desde que isso seja feito por inteiro, que a pessoa esteja, de fato, abraçando os resultados de suas escolhas, desde que tudo isso seja REAL.

A vida é frágil, breve, a existência é ligeira. Até que ponto estamos fazendo realmente cada dia valer a pena? Até que ponto sacrificamos os sonhos que nos perturbam – no bom sentido – para viver o que nos parece mais conveniente naquele momento? Diga-me: até que ponto você vai guardar ai dentro toda essa sede de ousar, errar e descobrir? Até que ponto você consegue se encarar e saber realmente definir quem é você?

Ter coragem de mudar é, antes de tudo, ser honesto consigo mesmo. Abrir mão da estabilidade para viver os riscos que as escolhas nos impõem é para poucos. Mas se manter “firme e repleto de certezas” apenas para se mostrar confiável diante dos outros é total sinal de fraqueza.

O bom da vida é poder confiar em alguém que seja capaz de se reavaliar sempre. Que esteja disposto a se desgarrar daquilo que não é mais – do que falhou, do que se arrependeu  - e procurar o melhor caminho para a própria vida. Acredite: essa gaiola que você vê à seu redor é imaginária, você mesmo a coloca ai, ninguém mais pode ser responsável por ela.

Não que tudo isso seja fácil. Escrever é muito mais simples que viver, óbvio. Mas a liberdade de correr riscos é uma premissa importante, que devemos tentar aplicar em nossa vida aos poucos. Dia após dia, tenho me dado uma chance para arriscar e, por que não, errar. Até os erros têm um lado bom, só precisamos saber vê-lo. Se dê uma chance também. Seguindo o velho e bom clichê, o pior é se arrepender daquilo que não fez.

Por Renata Stuart

 

Das cartas que eu não enviei

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Às vezes a vida nos surpreende. E às vezes eu me surpreendo comigo mesma….Não me reconheço e não me compreendo. Hoje, por exemplo, não entendo porque estou assim, tão triste com sua ausência. O que você fez em mim? Ou o que eu me deixei fazer comigo mesma? Onde foi que eu confundi as coisas? Você nunca me deu nenhuma esperança, nenhum sinal..Sempre reservado, sempre amigável com todos, respeitoso, sério. Onde foi que eu me confundi? Por que estou sentindo isso? Não foi de propósito, eu juro. E agora eu tenho vontade de chorar por você, que coisa louca. E chorar por estar sentindo isso que eu sei que é totalmente errado e surreal.

Ouvi falar uma vez que, na vida, existem alguns “amores possíveis” para cada um de nós. Que às vezes vemos certas pessoas nas ruas e, mesmo sem conhecê-las, sabemos que aquelas seriam, quem sabe, amores possíveis. Pessoas possíveis de amarmos, em outras circunstâncias, em outro momento, outra época. Pessoas que teriam uma chance em nosso coração.

Eu nunca tinha sentido isso. Sempre achei que o amor a gente meio que escolhe. E, de verdade, estou feliz com o amor que tenho hoje, ele me faz bem e me permite ser eu mesma. Mas, sabe, quando te conheci, aconteceu algo diferente, não sei explicar. Percebo agora que, simplesmente, você era um amor possível. Em outra circunstância, eu poderia ter te amado. Se você tivesse aparecido antes na minha vida, se tivéssemos nos cruzado em uma fase diferente, – em que ambos ainda não tínhamos o coração ocupado por alguém -, talvez, quem sabe, eu poderia ter te amado. Sei que não seria nada difícil.

Não amo você. Não tive tempo nem oportunidade e muito menos abertura para sentir isso. Mas, que fique claro, você mexeu comigo. E me perturbou, sem a menor intenção, mas perturbou.  Espero não ter deixado isso transparecer, torço para que você não tenha notado o efeito que causou em mim. Morro de vergonha de você sequer, por um instante, desconfiar que isso se passou aqui dentro dessa cabeça maluca.  Mas, quer saber, desejo do fundo do meu coração que você seja feliz e que você faça alguém muito feliz, de verdade.

Em hipótese alguma, pensei em alimentar esse vestígio de sentimento que ameaçou nascer em mim no tempo que convivi com você.  Tudo ficou pairando apenas em minha mente, em minha fantasia, em minhas manias de colocar o SE na frente “Como seria SE eu tivesse conhecido ele antes?”. Bobagem. Eu sou assim mesma. Sabe aquele verso “é uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer”? É exatamente isso. Ou, do jeito que sou louca, no fundo, talvez eu apenas fantasiei isso tudo em busca de uma inspiração para fazer um texto bonito. E olha, acho até que funcionou.

Por Renata Stuart

*Inspirado em relatos reais de uma querida amiga!

Saudade que aperta e escorre pelos dedos…

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Há exatos quatro anos, eu vivenciei o pior momento da minha vida: a sua partida. Foi então que me dei conta de que NADA mais seria o mesmo, e não foi.  A vida perdeu a leveza e a completude e eu pude ver, de fato, o quão vulnerável ela é.  Aqueles planos que a gente vive fazendo para o futuro perderam o sentido e o presente passou a valer ouro diante da incerteza da que comecei a enxergar na  vida, no depois, no amanhã.  E o meu lado “muleca” e criança, o qual só você mantinha vivo, deixou de existir.

Há exatos quatro anos, não ouvimos a sua voz grave, sua risada aberta e gostosa, não sentimos seu abraço e nem seu perfume. E, ao contrário do que se diz, o tempo não diminuiu a dor, não amenizou, não cicatrizou. Acontece que agora ela dói mais em silencio, reprimida, apertada… afinal a vida pede agilidade, tudo tem que continuar e não há tempo para parar e se deixar sofrer, se deixar doer, se deixar chorar.  “Keep going”, o mundo nos cobra.

Mas, hoje – apesar de ser uma data que eu preferia esquecer -  eu decidi parar para sofrer aberta e publicamente, nesse instante, e deixar registrado aqui a falta que você tem nos feito. Esses quatro anos foram uma barra sem você e tenho certeza que os próximos também serão. Mas, no fim das contas, o que nos mantém firmes é a certeza de que os quinze anos maravilhosos que tivemos ao seu lado valeram a pena. Te amamos muito, meu anjo. Um dia a gente se encontra.

Por Renata Stuart

*Para meu sempre amado irmão caçula.

Então…é Natal!

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Já gostei do natal. Quando criança, dezembro era sinônimo de fantasia, férias, Papai Noel, presentes e viagens. Eu me lembro da euforia com que eu e meus irmãos acordávamos para descer as escadas e ver os presentes que o “bom velhinho” havia deixado na árvore. Típica cena de filme americano, rs..Mas era uma delícia. Não me lembro de quando foi que descobri que essa tarefa era feita pelos meus pais! O amigo oculto, as comidas gostosas, as luzinhas e até as musiquinhas de natal me agradavam. Tudo era motivo de alegria.

Hoje, o natal não me provoca as sensações que um dia provocara, talvez porque eu tenha crescido e minha sensibilidade já não esteja tão aflorada, talvez porque meu irmão caçula não está mais aqui para compartilhar comigo essa fase do ano que ele mais amava ou talvez porque, hoje, eu enxergo o outro lado do natal. O lado triste, obscuro e injusto.

Fico pensando que, ao mesmo tempo em que eu esperava o papai Noel, as crianças pobres também esperavam, ainda que não tivessem uma árvore de natal ou uma casa com chaminé. Todas esperam. E, por sorte, meus pais tinham condições de alimentar a minha ilusão. Mas e quem não tem pais? E quem tem pais cujo dinheiro é suficiente apenas para comprar comida e olhe lá?

Ouvi um dia desses uma senhora humilde dizendo que, quando criança, sempre achou que o papai Noel não gostasse dela, pois seus presentes nunca chegaram. E, todo ano, ainda que no ano anterior ela não tivesse recebido nada, sempre restava uma pontinha de esperança que esperava o papai noel, mais uma vez.

Triste realidade. É duro pensar que essa fantasia intrínseca ao natal não é tão gostosa assim para alguns e, no fim das contas, só traz mágoa. Definitivamente, o natal não tem o mesmo gosto para todos. . Esta é, sem dúvidas, a fase em que a desigualdade social fica mais nítida, ao menos aos meus olhos.  Sobra muito para alguns e falta quase tudo para outros.

Uns associam a época apenas a gastos descontrolados, cartões de créditos estourados, compras, compras, compras e muita fartura. A mesa farta da ceia, com a imensa variedade de pratos e sobremesas, é imprescindível. E enquanto esses comem e trocam presentes à meia noite, outros continuam vagando as ruas vazias e iluminadas, sem saber o porquê de tanta alegria. Chato pensar neste outro lado, né?

Sem falar que a data se transformou em uma das comemorações mais comerciais que existem. Poucos param pra pensar no verdadeiro significado do Natal e nem sequer dedicam um minuto para ao menos agradecer a Deus pelo dom da vida. Muita gente não conversa com o irmão ou com o pai há anos, mas no natal distribui sorrisos tentando esconder a mágoa interna.

O Natal tem que ser mais que isso. O natal tem que significar renovação, amor, perdão, paz, solidariedade. Mas não adianta sair por ai com um caminhão de presentes para doar as crianças pobres se você não está bem com as pessoas ao seu redor. Não adianta dar vinhos, panetones e chesters ao lixeiro e ao mendigo, se você vive em guerra com a própria família.

O amor tem que começar dentro de você, dentro da sua casa, para depois ser externado. Aproveite. Essa é a hora que temos para abrir o coração e deixar tudo de bom sair e contagiar quem precisa e se deixar ser contagiado também.

Dê e receba amor. Feliz Natal.

 

Por Renata Stuart

Escrevendo sobre o inevitável …

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Eu tentei evitar falar sobre isso, aliás, sigo todos os dias da minha vida tentando não pensar nisso.  E eu tentei adiar esse momento, mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que me sentar e escrever sobre isso.  Isso que eu não gosto nem de citar o nome. Tá, pode parecer superstição ou sei-lá-o-quê, mas eu não gosto de falar o nome e pretendo ir até o fim desse texto sem sequer citar o objeto dele.

Isso que não aconteceu comigo ainda, mas vai acontecer. Não aconteceu com você que está lendo essa crônica nesse instante, mas vai acontecer, cedo ou tarde. Talvez você não tenha tempo nem de chegar ao fim desta crônica, mas talvez você tenha tempo não só de ler essa crônica, mas também de ir estudar amanhã, depois e depois até pegar seu diploma em direito, casar-se com seu futuro marido que você vai conhecer no tribunal, ter uma carreira reconhecida e mega estabilizada e, claro, muitos filhos de dar orgulho. Enfim. Cedo ou tarde, não importa quando, um dia isso vai acontecer com você e com todos. Mas o fato é: nunca estamos preparados para isso.

Já sabe do que estou falando, né? É bom que saiba, pois não posso ser mais literal que isso.  Parece ironia eu falar disso justo agora, logo em seguida da última crônica que postei aqui, em que o assunto era a celebração da vida, da existência. Sim, a vida é linda e é justo que se façam milhares de histórias, textos, crônicas, versos, poesias e sonetos sobre ela. Mas o fim da vida – que não manda cartão postal anunciando sua chegada – também deve ser retratado, afinal, ele é totalmente intrínseco a nossa vida.

Dizem que morrer faz parte da vida. Ninguém aceita, mas faz. A vida tem suas milhares de fases e a morte é apenas uma delas. Pronto. Parece frio e seco dito assim, à grosso modo, eu sei. Como se isso fosse óbvio e incontestável, mas não é. Não é simples assim e eu ainda não consigo aceitar a morte, justamente eu, que tenho essa mania de querer que tudo seja para sempre.

Acho muito fácil algumas pessoas falarem que a morte faz parte da vida e que devemos aceitá-la a todo custo. ‘Aceitar’ não sei bem se é a palavra, acho que caberia  mais ‘suportar’, ‘tolerar’. Não entra na minha cabeça que devo aceitar tranquilamente que nunca mais verei meu irmão caçula que eu tanto amo. O que eu entendo é que não tenho escolha, não me restam opções. O mundo não acabou como eu achei que acabaria e, dessa forma, sigo vivendo sem ele. Aceitando? Jamais. Mas seguindo como alguém que é incompleto. Mas, afinal, quem é completo nessa vida? Todo mundo sente falta de algo. Uns de pessoas, outros de coisas, outros de sentimentos, outros de status. E todos vão vivendo assim, nessa busca incessante de suprir a falta de algo.

Antes de simplesmente nos falarem que a morte faz parte da vida deveriam implantar esse ensinamento nas escolas então, desde o princípio, lá no maternal, sabe? Para que cresçamos com a consciência natural de que, no meio do percurso da vida, algumas pessoas nos serão tomadas e que não devemos irracionalmente querer apertar o stop e parar de viver também. Por outro lado, pensando bem, se a morte fosse tratada das escolas comumente, tenho certo receio de que tanta naturalidade a banalizaria. Ou seja, as pessoas poderiam até sofrer menos com as perdas, mas também seriam mais frias e, talvez, insensíveis. Sei lá, acho arriscado.

E a esta altura, você já deve ter reparado que, ao contrário do que prometi no início, acabei soltando a palavra que resume essa crônica: A morte. É, vamos repetir: a morte. Quem sabe assim fica mais fácil aceitar essa cruel que só nos condena a tristeza e a saudade. Sei que não é um assunto legal para se ler, me perdoe. A morte ainda é tabu e ler uma crônica sobre ela não anima o dia de ninguém. Mas, assim como eu disse no texto anterior que envelhecer é viver, morrer também é viver, afinal, para morrer, é preciso, antes, estar vivo.

 

Por Renata Stuart

Porque envelhecer é viver …

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É o meu aniversário. Sim, não me importo em anunciar: Estou ficando mais velha hoje. Aliás, não só hoje, todos os dias, fico um pouco mais velha. Sim, essa é uma das poucas certezas que temos nessa vida. Todos (os que têm sorte), com o passar dos minutos, horas, dias, semanas, meses, envelhecem. Acontece que apenas nos anos é que a gente se lembra de celebrar isso.

E tudo ocorre de forma sutil, a gente quase nem sente num período de curto prazo. Vamos apenas vivendo e quando nos damos conta: Os anos se passaram. E, então, as marcas do tempo começam a falar. Não falo apenas de rugas ou cabelos brancos, falo das cores, gostos, sentimentos e sensações que ficam para trás, dando lugar a outros, nem melhores, nem piores, mas diferentes. O calendário da vida passa pra todos. Disso, não há como fugir.

Mas, calma, não quero fazer um texto dramático sobre “como-o-tempo-voa” ou “a-idade-chega-para-todos”. Nada disso. Pode continuar ai. Hoje, eu quero brindar a vida. Sim, acho justo! Afinal, há exatamente 22 anos, eu nasci. Num mês frio, durante a madrugada, num parto meio turbulento – sim, pois minha mãe visitou vááários hospitais naquela noite em busca de um médico obstetra – eu vim ao mundo. E, já que estou aqui de passagem, por que não comemorar essa deliciosa viagem que é a vida?

Não entendo bem porque as pessoas têm tanta neura com idade. Envelhecer é algo inerente ao ser humano. Estar velho ainda é estar vivo. Acho que isso deveria ser encarado como só mais uma fase – natural e especial – da vida. Afinal, não é só você que está ficando velho, mas todos da sua geração. E é hora de viver isso juntos, encarar a situação de frente, assumir o tempo de cabeça erguida. Bom, não serei hipócrita. Sinto saudades da minha infância, dos meus quinze anos e sei que, um dia, vou sentir saudade dos 22.  E quando penso que estou próxima dos 30, então?! Sinto um friozinho na barriga como que um misto de tristeza e ansiedade. Tristeza porque sei que terei deixado para trás uma época memorável. A universidade, os amores mal resolvidos, aquela dose de irresponsabilidade, o namoro, as primeiras conquistas, e a famosa “época de arriscar”. Tudo isso vai passar, eu sei. E ansiedade porque sei que há uma outra fase única me aguardando.

Mas é assim que tem que ser. São essas velinhas que sopramos ao longo da vida que nos acrescentam algo como pessoa. São os momentos vividos, experiências adquiridas e escolhas feitas que dão o peso necessário à nossa bagagem. Tenho que prosseguir. E, se para correr atrás dos meus sonhos ainda não alcançados, terei que continuar envelhecendo, que venha o tempo, e que venham muitas velas para eu soprar, pois meus anseios são muitos e tenho planos para um século. Já dizia minha bisavó: “Quem não quer ficar velho, tem que morrer novo”.

É por isso que, hoje, eu só quero sorrir para a vida. Sorrir para todos a minha volta e para mim mesma. Sorrir como alguém que não tem a vida perfeita, mas como alguém que é feliz com o que tem e com o que se tornou. Sorrir como quem é grata pela família inigualável, pelo lar, pelos amigos verdadeiros e pelo amor companheiro. Sorrir pelos abraços, beijos e palavras sinceras. Sorrir pela saúde, pela determinação, pela esperança. Sorrir pelo maior presente que eu podia receber: estar viva!

 

Por Renata Stuart