Reflexão

Você não vai com a minha cara?

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Os santos não se bateram. Simples. Não há gentileza que eu faça que mude sua opinião a meu respeito.Você bateu o olho em mim, construiu uma imagem, estabeleceu um (pré)conceito e guardou essa visão desfocada dentro de alguma gaveta do seu cérebro preguiçoso. Pronto. Todos os meus esforços para mudar isso serão, portanto, dispêndio de energia em vão.

Nunca entendi esse tal fenômeno de  ‘não-ir-com-a-cara’ . Boba como sou, sempre achei que, para alguém não gostar de mim, eu deveria ter feito algo errado, mesmo que involuntariamente.

Uns descrevem isso como uma espécie de química interior. Energias incompatíveis. Uma força interna que impede a aproximação de dois seres.  Essências que não se cruzam. Ponto final. Outros apelam para o sobrenatural. Fiz algo errado? Talvez sim, mas foi em outra vida. Tentam justificar essa antipatia – aparentemente sem lógica – por inimizades de uma vida passada.

Enfim. Para mim, esse fenômeno nada mais é que uma boa mistura de: preconceito, inveja e amargura.  Sim, preconceito porque julga-se sem conhecer. Há preguiça de adentrar mais a fundo na vida do outro para, posteriormente, tirar conclusões embasadas. Inveja porque a única explicação para se reprimir alguém que nada nos fez é, justamente, o fato de não sê-lo.  E amargura por que ‘não-ir-com-a-cara’ de alguém é também perder a oportunidade de conhecer alguém novo, experiências novas, novas amizades. É auto-estima baixa. É mau-humor. É orgulho.

Tudo bem, ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Ser mal educada pode até ser um direito seu. Mas, por outro lado, ser indiferente é um todinho meu. Trate-me mal, finja que não me viu na rua. Seja legal com todos da minha família, e vire a cara para mim. Não me importa. Isso não me causa insônia, não me descabela, nem me dá rugas. A única energia que pretendo gastar com essa sua aversão – que nunca entenderei – termina juntamente com esse texto.

Vida Cronometrada

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Revirando arquivos antigos do computador, achei a crônica abaixo, que foi feita para um trabalho de faculdade, em 2010, no 1º período, com a participação de mais duas colegas, Marcela Soares e Paloma Melo. =] É um relato de um jovem dos dias de hoje que resume como funciona o tempo na lógica do capitalismo. Achei legal compartilhar isso com vocês. É grandinha, mas acho que a leitura vale a pena. Boa semana!

Nasci em uma grande cidade, onde o fluxo de pessoas nas ruas é constante. Quando pequeno, sempre via minha mãe saindo para trabalhar, e, chorando, eu me perguntava: Por que ela tem que ir? Meu pai acordava às 5h da manhã para trabalhar e eu me perguntava a mesma coisa. Quando comecei a estudar, me perguntava: por que eu tenho que ir para a escola?

E, no decorrer do tempo, percebi que todas as nossas ações giram em torno de um mesmo objetivo: estudar para conseguir emprego, conseguir emprego para adquirir dinheiro e adquirir dinheiro para adquirir bens.

Todos os dias eu acordo às 6h00, me organizo e calculo o tempo exato que vou gastar até me deslocar ao trabalho. Às 6h15, termino meu banho o qual eu gostaria muito de prolongar e, às 6h30, acabo de tomar meu corrido café da manhã e corro para o ponto de ônibus, quase sempre mastigando alguma coisa.

No ônibus, é sempre tudo igual, encontro com as mesmas pessoas, as que dão sorte de conseguirem um assento vão cochilando e eu, como sempre, estou de pé. Às 7h30, chego ao escritório onde trabalho e meu chefe me espera com uma pilha enorme de papéis e, então, tenho que fazer em um dia de trabalho o que qualquer simples mortal faria em três.

Depois dessa longa manhã, é chegada a hora de almoçar. Durante o almoço, faço 1.357 coisas, inúmeras ligações, mando e-mails, resolvo exercícios da faculdade e etc. Quando menos espero, já são 13h e volto para o escritório onde fico até as 17h30.

Em seguida, às 17h45, mais precisamente, entro em um ônibus e, às 18h15, chego ao metrô. Nesse intervalo de tempo, vou pensando em várias coisas, inclusive em como farei para pagar a faculdade nesse semestre, em arrumar outro emprego, em comprar um carro para não precisar fazer esse percurso tão cansativo! Daí me lembro que carro também requer dinheiro para bancá-lo, logo, não posso, de forma alguma, parar de trabalhar para me dedicar inteiramente aos estudos e obter notas melhores. Vou levando como dá.

Enfim, às 18h45 chego na faculdade… Todos indo em direção a sala de aula, os alunos da tarde saindo, ônibus parando, vans estacionando.

Então, vou rapidamente à cantina lanchar, e, lá, todos estão sempre reclamando do cansaço e da falta de tempo. Exatamente às 19h00 começa a aula e me esforço ao máximo para entender tudo para não ter que estudar novamente em casa, afinal, não tenho tempo para isso.  Às 20h40, é a hora do intervalo e aproveito para ir adiantando alguns trabalhos.  Finalmente, às 22h30, saio da faculdade às pressas para não perder a van, onde não converso com ninguém, pois vou cochilando o caminho todo.

Chego em casa às 23:15 e vou ao quarto de meus pais desligar a TV, pois eles já estão dormindo. Sinto falta da época que passava mais tempo com meus pais, mas eu não tenho outra escolha. Se realmente quero ser alguém no futuro e dar uma vida digna a minha família, tenho que abrir mão de algumas coisas. Inclusive deles. Então, Tomo meu banho e esquento o jantar que minha mãe preparou provavelmente umas três horas antes.

Penso em pegar um livro de minha preferência para ler antes de dormir, mas me lembro que tenho inúmeros trabalhos de faculdade para adiantar ou provas para estudar. Assim, faço isso resistindo ao sono até 02h00, quando, finalmente, vou me deitar. Ufa, acho que só respiro porque isso não gasta tempo. É impressionante como, nesse momento, a cama parece ser o melhor lugar do mundo!

Mas, ainda hoje, depois de crescido, entendendo que somos movidos e cronometrados pela lógica do capitalismo, chego à conclusão que não obtive a resposta da pergunta que eu sempre me fazia quando criança: Para quê? Por que tenho que ir? Por que temos que levantar cedo, abrir mão de nossas vontades e buscar incessantemente esse tal “pedaço de papel” que é o dinheiro? Será que vale a pena? Será que isso é mais importante do que chegar a tempo de jantar com minha família, que a cada dia parece mais afastada? Não sei como responder. Mas, quando olho para o relógio, e lembro que, em cerca de quatro horas, estarei de pé novamente, vejo que pensar também demanda tempo, então, fecho os olhos.

Felicidade simples

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Parece piegas, clichezão, mas sempre dei valor às coisas simples. Aquelas felicidades de pequenos momentos. Felicidades bobas, modestas, mas deliciosas. O suspiro de alívio ao chegar em casa depois de um dia cansativo, tirar os sapatos. Abrir a geladeira e matar quem estava de matando. Curtir minha casa. Tomar um banho, lavar o cabelo e ouvir uma música boa enquanto visto a roupa. Curtir os 10 minutinhos de soneca de manhã. Passar o sábado em casa vendo filmes, agarradinha com quem amo. Dormir com barulhinho da chuva. Dar risadas de molhar os olhos em um dia típico, para aliviar o estresse da rotina. E suspirar depois de rir muito – “aiai”. Tomar um açaí com os amigos, curtindo cada colherada devagar, saboreando. Comer um sonho de valsa e fechar os olhos como se o gosto ficasse melhor assim.  Colocar a fofoca em dia com minha mãe antes de ir me deitar a noite. Ver fotos, cadernos, cartas velhas. Lembrar da infância. Como eu amo a nostalgia. Abraçar meu namorado e ficar um tempinho parada ali, sentindo seu perfume. Brincar de ser criança, de inventar apelidos, de lutar, de morder. Fazer drama. Sentar num bar com música ao vivo, ouvir a música, aplaudir e pedir mais. Pedir comida japonesa por telefone com a família e discutir sobre quem comeu mais. Cinema, cheirinho de pipoca. Viajar ouvindo música, cantando e alterando as letras, só de brincadeira. Sentir o vento, a luz do sol. Amo cada pedacinho de alegria que a vida me proporciona. Porque essas felicidades despretensiosas, que pouco prometem, valem muito, pois nunca nos deixam frustradas. Cumprem o seu papel, não alimentam nossas expectativas, e fazem um dia qualquer se tornar especial.

Por Renata Stuart

Viver é corresponder …

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Desde que abrimos os olhos para esse mundo, somos convidados a corresponder expectativas. O mundo espera de nós, o tempo todo. As cobranças, por mais banais que sejam, são intermináveis.  

Com 1 ano de idade, pisar firme no chão e andar. Com 2 anos, abrir a matraca, repetir, repetir,  e, finalmente, aprender a falar. Aos  5, ser uma criança obediente e, assim,ganhar presentes. Aos 10, ter boas notas e, assim, passar o fim de semana na casa da prima. Aos 13, ser menos rebelde, fazer exercícios e trabalhos escolares para, assim, ir à festa na casa da Ana. Aos 14, dar o primeiro beijo para, assim, atestar o fim da infância e ser considerada uma adolescente de verdade. Aos 17, todos esperam que já saibamos o que queremos ser e fazer pro resto da vida. Aos 18, passar no vestibular e entrar para a faculdade. E daí em diante as coisas só pioram.

Aos 20, vêm as entrevistas de emprego. Esperam que falemos inglês, francês e mandarim. E ainda temos que ser bons de redação, planejamento, softwares gráficos e trabalho em equipe. Aos 24, esperam que tenhamos um emprego fixo, um salário digno e, quem sabe, um carro. Aos 30, esperam que o sucesso tenha batido a nossa porta como uma vizinha que pede açúcar. Além de já ter encontrado o amor da sua vida, você já deve ter um salário, não só digno, mas alto e que compense todos os anos de investimento na sua educação. Ter, pelo menos, um apartamento financiado, um carro do ano na garagem e fazer, no mínimo, 2 viagens por ano. Aos 40, você deve ter estabilidade. Se você é mulher, mesmo estando no século XXI, as cobranças são infinitamente maiores. Ser boa mãe, boa esposa, boa patroa, boa funcionária, boa cozinheira, boa sogra, boa nora.

Aos 70, espera-se que, apesar das cobranças de toda essa jornada, você ainda tenha sede de viver. E, o mais importante, espera-se que você possa olhar para trás e se orgulhar de seus feitos.

Que se danem as cobranças, o senso comum, a sociedade. Preocupar-se apenas com o que o mundo espera de nós pode acarretar, no final, uma conta bem mais cara a pagar: A dor de não poder voltar no tempo e corresponder aos próprios anseios.

Baile de Máscaras

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Tem gente que não espera o carnaval para desfilar de máscaras, desfila o ano inteiro.

Gente que mente. Gente que age contra as próprias convicções. Gente que muda o tratamento com os outros, dependendo de quanto proveito vai tirar de cada um. Uma máscara para cada ocasião. Gente que, a sua frente, lhe sorri, e as suas costas, lhe difama. Gente que se esforça em aparentar ser o que não é. Gente que não lê, mas compra livros. Gente que escuta Fresno e diz que ama Chico Buarque. Gente convencional, de fala moderna. Gente incoerente. Gente que briga com si mesmo, o tempo todo, para agradar o senso comum. Gente que é gentil na frente de um e hostil perto de outro. Gente que se faz de boa pessoa, mas maltrata o garçom, a balconista e a faxineira. Gente que é o melhor amigo de todos, mas não é bom filho, nem bom irmão. Gente que não se permite mudar de opinião, por medo de parecer fraco. Gente que torce contra o próximo, mas o parabeniza quando ele vence. Gente que, apesar de não sabermos, está em todo lugar.

A vida é um verdadeiro baile de máscaras…E, por mais tempo que ele dure, as máscaras sempre caem, antes que a festa acabe. 

Por Renata Stuart

Cabo de Guerra

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Já parou para pensar em como o mundo é repleto de contrastes? Contrastes de ideias, opiniões, personalidades, poder e tantos outros. Mas, para mim, o maior dos contrastes é o de interesses.

Os moradores das cidades destruídas pelas enchentes suplicam para que a chuva cesse. Por outro lado, aquele que vive da plantação, ou até mesmo o vendedor de guarda-chuvas, torcem para que a água continue.

As ruas das grandes cidades já não têm lugar para tantos veículos. As pessoas esperam por leis que pare esse crescimento absurdo. No entanto, os donos de concessionárias querem vender mais e mais carros.

Queremos um mundo sem pobreza. Mas, por mais chocante que seja, algumas correntes de pensamento afirmam que a pobreza é necessária para o equilíbrio do planeta, para o sustento do capitalismo.

As mulheres desejam ser aceitas como são, sem opressão pelos padrões de beleza impostos, mas os cirurgiões plásticos precisam faturar. As pessoas querem a cura definitiva da gripe, mas, ao mesmo tempo, as indústrias farmacêuticas não estão tão preocupadas com isso.

Pessoas querem ser libertas da onda de depressão que assola o mundo, mas os psicólogos e psiquiatras querem trabalho. A mãe ora a Deus para que o filho largue as drogas, e o traficante quer viciá-lo a qualquer custo.

Queremos ser mais econômicos. E a publicidade nos bombardeia 24 horas por dia na tentativa de nos seduzir ao consumo. Não gostamos de ter que usar o cheque especial, já o banco está sempre disposto a nos oferecê-lo.

Sonhamos com governantes íntegros, não corruptos. E os governantes só pensam em acumular patrimônios para suas famílias. Os professores reivindicam aumento salarial e, adivinha, os vereadores também.

Não aguentamos mais assistir a tantas tragédias, mas os jornais sensacionalistas sobrevivem com a venda dessas notícias.

E assim os homens seguem seu percurso. Todos cegos pelas próprias aspirações. É como um jogo de cabo de guerra, onde cada lado defende, unicamente, o seu interesse. E, neste jogo, quem vence é o mais forte.

Claro, alguns jogadores passam por cima de qualquer escrúpulo e, sem o mínimo de culpa, fazem de tudo (tudo mesmo!)para puxar a corda para seu lado. Já outros, preferem vencer a partida de forma mais árdua, mas também mais limpa, digna e justa. Cabe a nós decidirmos em qual lado da corda queremos estar.

O primeiro passo

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Um novo ano quase sempre vem acompanhado de um friozinho na barriga e uma boa dose de expectativa. A sensação é como se muitas coisas fossem mudar, por um simples número que avança no calendário.  Mas, na verdade nua e crua, é apenas o tempo passando, fazendo seu serviço.  É claro que, como disse no post página em branco, um novo ano é a chance de usar o aprendizado do ano anterior para se escrever melhor o novo capítulo que se abre, mas cada mudança a seu tempo.

Não adianta alimentar uma ansiedade desesperadora de que tudo irá se transformar nesse percurso de 365 dias. É preciso enxergar adiante e delimitar pequenos desafios menores para, a longo prazo, alçar vôos maiores.

Se sua ideia é emagrecer alguns quiilinhos, não adianta iniciar o ano se privando de tudo o que tem de mais gostoso. É necessário dar o primeiro passo. Reduzir os alimentos mais gordurosos, adquirir, aos poucos, hábitos mais saudáveis e criar objetivos curtos, para que o desânimo não interrompa o alvo final. ( É o que estou tentando fazer..rs)

Se sua meta é viver uma experiência de auto-aprendizado, talvez tornando-se alguém mais tolerante ou mais gentil, comece pelos pequenos gestos. Não adianta forçar um personagem e, de um dia para o outro, se transformar na boa samaritana, se seu apelido sempre foi Tati Quebra Barraco.

Se escrever um livro é sua meta do ano, não adianta sair escrevendo ligeiramente sobre tudo o que vê na frente.  Comece com o primeiro passo. Estipule horários para se dedicar a esta atividade e, com calma, deixe as palavras dominarem, espontaneamente, o movimento de seus dedos.

Quer um ano de mais leitura? Não adianta sair comprando uma pilha de livros para amontoá-los todos na estante. E, mesmo que faça isso, não tenha pressa em finalizá-los. Eles estarão todos ali à sua espera, desfrute de cada um com prazer e tranqüilidade.

Respire. Não tente atropelar o tempo. Acredito que, para todo e qualquer plano que tenhamos para 2012, é fundamental enxergar o primeiro passo e focar naquilo que nos é mais acessível hoje e agora.

É melhor ir devagar, armazenando energias, do que gastar toda a pilha antes de chegar do outro lado do rio. No fim das contas, seu caderninho de “Planos para o ano novo” não terá sido um projeto abandonado no meio da correnteza.

E você? Qual o primeiro passo para 2012?

Nunca x Sempre

Posted on by Renata Stuart in Reflexão, Textos de amor | 4 Comments

Se há duas palavras que deveriam ser excluídas, ou ao menos evitadas, em nosso vocabulário, são Nunca e Sempre. Ambas fazem promessas com relação a um futuro sem a menor garantia que serão cumpridas, já que o tempo e os acontecimentos não estão na palma de nossas mãos.

Quando você diz que nunca irá perdoar alguém você está assegurando que, em tempo algum, será tocado pelo perdão ou pela saudade. O nunca, de certa forma, te proíbe de voltar atrás. O nunca nos faz pagar língua até nas coisas mais banais. Quando você jura para si mesmo que nunca irá comer suflê de repolho você não imagina que, dentro de alguns meses, estará saboreando essa ‘delícia’ justo no primeiro jantar na casa do seu namorado. Quando você afirmou com toda a convicção do mundo que nunca dançaria pagode ou funk você não podia prever que faria isso num nível 3 de álcool. Enfim, quando você disse que nunca esqueceria o Dudu que conheceu em Guarapari, você não sabia que, mais tarde, ele se tornaria só mais um romance de carnaval. Quando você disse que nunca colocaria os pés numa prisão, você não esperava ter de pagar a fiança do seu filho um dia.

Por outro lado, quando você suspirou dizendo que amaria as músicas do KLB para todo o sempre, você não fazia idéia do que era gosto musical. Quando você afirmava que sempre seria a mesma, você não contava que as circunstâncias da vida te fariam mudar tanto. Quando você prometeu que sempre moraria na sua pacata cidade natal, você não sonhava em receber uma proposta de trabalho irrecusável na Flórida. Quando você se gabou dizendo que sempre tem humildade para pedir desculpas, você não sabia que o orgulho um dia te invadiria.

Assim são os sempres e os nuncas da vida. Por vezes, nos fazem cair em contradições….por vezes, nos fazem cometer atos que, em outra época, reprenderíamos. Ambas são palavras fortes que, embora não pensemos, deveriam ser ditas com mais cautela.

O nunca é soberbo, pretensioso, autoritário. Já o sempre é vago, costuma soar falso e, ao mesmo tempo, é ilusório.

Mas, sejamos flexíveis. Existe algo melhor que ouvir de quem amamos um “Nunca vou te abandonar” ou um “Sempre estarei ao seu lado”?

Mesmo sabendo que essas palavras são meras promessas que podem ser desfeitas pelas armadilhas da vida, não cansamos de proferí-las e, muito menos, de ouví-las. A sensação é de proteção, de segurança, de acolhimento. Neste caso, o conforto momentâneo das palavras se torna mais importante que qualquer pretensão. Que se dane o amanhã, sempre vale à pena fazer promessas para quem amamos. Nem que seja só por hoje.

Página em branco

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 2 Comments

Ouvi em algum lugar que um novo ano é como uma página em branco. Uma página pronta para ser escrita. Um aglomerado de linhas à espera de nossa singela atitude de pegar o lápis e começar a escrever, mesmo que inconscientemente, mais um capítulo de nossa vida…

Embora seja impossível voltar a página anterior e mudar o que já foi rabiscado, essa nova página que se abre é uma chance de escrever melhor, com mais sabedoria, gastando menos lápis, menos esforço, evitando o uso do corretivo, que, afinal, nada mais é que uma tentativa inútil de apagar o que não tem volta.

Um novo ano é a chance que temos de converter os erros do passado em um rascunho para escrever o novo ano que se anuncia, de usar as conquistas e as alegrias acumuladas para recarregar a tinta da caneta e de fazer dos tropeços e das dificuldades um apontador para as pontas que irão se quebrar no caminho da escrita…

Que saibamos aproveitar o ano que se passou como aprendizado para esse novo ano que se faz presente.

Que em 2012 você escreva lindas páginas!
Feliz ano novo!

Tudo ainda está aqui.

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 3 Comments

O mundo ainda existe. Eu achei que ele ia desabar quando você deixou de fazer parte dele, mas, por incrível que pareça, ele ainda sobrevive. O céu também. Mais cinzento aos meus olhos, mas ainda está lá quando olho pra cima. Nossa casa ainda está aqui, no mesmo endereço, do mesmo jeito. A aparência interna está um pouco diferente, fizemos algumas reformas, (inclusive agora tem o portão eletrônico que você tanto queria… lembra como era ruim ter de sair do carro para abrir? Rs) mas não nos mudamos. Apesar de todos os cantos terem uma lembrança sua, eu prefiro isso a ter que me mudar para uma casa onde você não esteve, não pisou, não dividiu momentos comigo. Suas roupas, nem todas estão mais aqui. Demos algumas para familiares, amigos ou para necessitados. Mas ainda temos algumas, aquelas que você gostava mais, por exemplo. Sou mórbida mesmo, aquele seu blusão roxo eu guardo comigo, lembro até da última vez que você o usou e nunca o lavamos. Enfim, seu quarto ainda está aqui, bom, na verdade não mais com suas coisas, doía muito ir ao banheiro de madrugada, passar pela sua porta e me dar conta de que você não dormia mais na sua cama, intacta, arrumadinha demais. Mas ele ainda está aqui, sempre será seu quartinho. As pessoas ainda estão ai, algumas se foram depois de você, como a nossa bisavó e nossa avó, mas a maioria está aí, levando suas vidas em frente, trabalhando, estudando, batalhando. Aliás, não temos escolhas, temos? A vida não nos dá a opção de parar, ela exige movimento. Confesso que, para a maioria das pessoas, tudo permanece exatamente do mesmo jeito, a vida delas está, digamos, normal, plena. Não que elas não te amem como nós, era impossível não amar você, mas a dor não deixou cicatrizes nelas como deixou em nós, aqui de casa. Esse buraco só é aberto no peito de quem esteve a vida inteira ao seu lado e jurava que duraria para sempre. Os restaurantes que você gosta, os filmes, os jogos, os brinquedos, seus amigos, tudo está aqui ainda. Seus amigos estão crescendo e eu perdi a referência, o parâmetro para saber a idade deles. Me assustei quando soube que o baile de formatura, que também seria o seu, aconteceu. Me toquei que hoje você já seria um homem e não mais aquele garoto que sempre vou ter em mente. Tudo está, aparentemente, normal. Até as luzes de natal estão aí, firme e forte pela cidade. As coisas que nos deixavam felizes ainda existem, mas perderam aquele sabor, sabe? Aquela sensação de vida leve, tranqüila, divertida… quando tudo o que te falta são apenas coisas e não pessoas, não você. Enfim, como eu venho dizendo, quase tudo ainda está aqui. Eu, afinal, percebi que as coisas não se desmoronam quando a gente pensa que vão desmoronar, não acabam quando a gente quer que acabem, elas perdem o sentido que tinham, claro, mas resistem a essas tempestades da vida. A força que acreditamos que não temos (e não temos mesmo) surge de algum lugar, como se a única opção fosse segurá-la e, então, a gente se segura nela e vai, meio que por impulso. Talvez fingindo que você está apenas fazendo uma viagem ou algo do tipo. Só que, às vezes, essa mesma força sai de cena, nos fazendo desativar o piloto automático e se entregar a fraqueza. Mas, depois de um tempo, ela resolve voltar para novamente nos dar a bengala que sustenta a caminhada. Eu também estou aqui, embora uma parte tenha ido com você. Embora sem aquela ‘eu’ inocente, sonhadora e cheia de manias infantis que só você entendia. A ‘eu’ de hoje é mais realista, pé no chão e insegura com relação à vida, vida que se mostrou muito frágil com a sua partida repentina. Mas essa EU, que ainda está aqui, é a mesma irmã, fã, admiradora, puxa-saco, que nutre e sempre vai nutrir um amor imensurável por você. Há momentos que eu sinto que minha vida é um quebra-cabeça que nunca será completado. Mesmo que tudo daqui em diante dê certo, mesmo que eu consiga encaixar todas as peças, ele nunca será finalizado, sempre vai faltar a sua peça. A sua presença. Vai faltar você. E essa falta não vai passar, eu sei, só mudar. Como diz a sábia Martha Medeiros, o tempo não cura nada, só tira o incurável do centro das atenções….