Reflexão

O dia DELAS – 08 de março

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Umas são tímidas, de olhos baixos e voz suave. Outras são ousadas, impetuosas e determinadas. Umas não precisam de nada além de filhos e marido. Algumas só querem mesmo cuidado e atenção, e outras não abrem mão da profissão, da independência financeira. Umas travam uma batalha contra o tempo, se torturam nas academias e querem ser eternamente jovens, já outras veem a velhice como maturidade, e aceitam as rugas sem preocupação . Umas seguem a cabeça, outras só escutam o coração.

São elas que são tachadas pela bunda ou pelos peitos que possuem. São elas que sofrem os efeitos da TPM, as cólicas menstruais e a dor do parto. São elas que se depilam, mantêm as unhas feitas, fazem as sobrancelhas com frequência e estão sempre perfumadas. Algumas fazem manobras diárias. Apesar do “sexo frágil”, são elas quem têm que dar conta da casa, dos filhos, do trabalho e de si mesma. São elas que toleram o padrão de beleza imposto, as cantadas ofensivas e as piadinhas machistas.

Elas, que foram ‘santas’ por séculos, que engoliam tudo, reprimiam desejos e tapavam os olhos para tudo o que lhes era negado. Elas, que têm a capacidade incrível de fazer mil coisas ao mesmo tempo, elas que, hoje, ocupam cargos de comando em empresas, e governam até países.

São elas que diariamente, em especial hoje, merecem o nosso aplauso. Mais do que um dia para dar e receber rosas, hoje é um dia para homenagear as mulheres que morreram na luta contra a violência, a injustiça, e a repressão. E, mais, hoje é um dia de se orgulhar de tudo que, nós, mulheres, conquistamos.

Parabéns a você, mulher _o/

 

Por Renata Stuart

Amigo não cobra, pede.

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Uma das coisas que mais valorizo é a amizade. Ser o porto seguro para alguém é tão bom quanto saber que você também tem um refúgio, um território conhecido, uma espécie de divã, de onde você pode se abrir, sempre que precisar. Adoro quando uma amiga me procura para compartilhar uma conquista, um desabafo, ou uma fofoca que seja. É sinal de que a minha opinião, ou simplesmente a minha atenção, significa algo para ela. Isso pra mim é amizade. Como dizem mesmo? A amizade multiplica as alegrias e divide as tristezas.

Mas até que ponto nossos amigos precisam carregar nossas tristezas? Já passei por situações muito tristes na vida. Situações que, sempre que me veem a memória, arrancam lágrimas que dariam um rio. O fato é que nem sempre meus amigos estavam por perto, segurando a minha mão. Não os julgo por isso e nunca cobrei isso deles. Quando estamos enfrentando uma luta na vida, a nossa vida pára e, nem por isso temos o direito de esperar que a vida das pessoas que amamos pare junto com a nossa. A vida é corrida e, mesmo que o mundo esteja prestes a desabar sobre mim, ele não gira em torno do meu próprio umbigo. O ponteiro do relógio não interrompe seu percurso. A vida me ensinou isso.

Claro, nessas horas só queremos alguém para desmontar em cima, para gritar, para sofrer junto. Mas, além do amor, outra coisa que não se cobra é o tão esperado consolo. Tem gente que passa por um problema – como se fosse a única pessoa que está sofrendo na face da terra – e tudo o que faz é se fazer de vítima, bancar o excluído, que ninguém ama, e ninguém se importa. Só sabe cobrar um gesto, um ato, uma reação dos amigos.

Ombro, colo, consolo, abraço forte, uma palavra de apoio ou até um silêncio compartilhado – tudo isso é muito bom –  mas quando é natural, de coração. Essas coisas acontecem na hora certa, quando o coração sente que precisa oferecer. Cada um tem o seu momento e cada um tem um jeito de encarar a vida, a morte, a dor. Não devemos esperar que as pessoas façam o que nós faríamos. Algumas pessoas se recuam diante do sofrimento, faltam palavras, falta jeito para entrar no assunto. Não cabe a mim julgar que, por isso, elas não se importam comigo. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Por que, ao invés de esperar a força vir até nós, não vamos até ela? Falta humildade para ligar e dizer: ‘amigo, preciso de você’. Só quem é amigo mesmo ousa fazer isso.

E tem aquele tipo que espera muito e pouco faz. Já vi pessoas cobrando coisas que nunca – nunca mesmo – fizeram a ninguém. É muito fácil esperar consideração, cobrar sentimentos, exigir atenção. O difícil é abrir os braços, se doar e se colocar inteiramente à disposição do outro. Isso sim é raro.

Acredite, as pessoas nem sempre vão corresponder às suas expectativas, nem sempre vão te bajular ou se curvar diante de você (tem gente que gosta é disso), nem sempre estarão ali, no stand by à sua espera, e nem sempre vão concordar com a sua opinião. Às vezes elas erram, pecam por distração, pecam por medo, pecam por serem diferentes de você e te decepcionam. Ignorância é virar as costas e perder uma amizade de valor pela simples necessidade de estar no centro das atenções.

Por Renata Stuart

Linha de chegada

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Nos acompanham planos, projetos, sonhos. E aquela vontade de enxergar de vez o que é que nos espera do outro lado, no fim da largada. Querer é fácil, idealizar mais fácil ainda. Difícil é partir pro ataque, encarar de frente as dificuldades que surgirão no percurso.

E prometemos: Amanhã tudo será diferente. Vou inovar, vou me mover, vou mudar.  Mas daí vem o amanhã e, junto com ele, milhões de empecilhos. Vinte e quatro horas apressadas demais. Mal tive tempo de pensar, deixa para amanhã, sem falta.

E aquele medo aliado a preguiça de sair da zona de conforto hesita em nos deixar. A rotina é mais cômoda, todo mundo aprova, compreende. Ninguém contraria o óbvio. Difícil é levantar decidido com uma ideia na cabeça e não dormir com ela inacabada. Fácil é deixá-la ali, subentendida, sobrevoando, para outra oportunidade, quem sabe.

Depositamos toda nossa fé no dia seguinte, no mês seguinte, no ano que vem. Todo dia uma esperança, uma promessa e um dia a menos para agir, um dia a menos para arriscar. Talvez essa covardia se deva a um único fato: Temos medo de avistar a linha de chegada sem ter cumprido todos os nossos planos. Até para perder tem que ser corajoso.

Por Renata Stuart

Pausa para o amor

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Chegada do Carnaval aumenta o número de solteiros no Facebook e assusta Mark. Esta foi a notícia que saiu um dia desses no portal G17.

Não foi só o Zuckerberg que se assustou. Eu, mesmo sabendo que isso acontece (mesmo!), ainda me assusto ao constatar que existem notícias assim, relacionamentos assim e, principalmente, homens assim.

É impressionante como nessa época todo mundo resolve entrar em “crise”. Qualquer coisinha é motivo de término em vésperas de folia. “Preciso de um tempo, meu bem, nosso relacionamento caiu na rotina, está desgastado.” Há-há. Não me diga. E só agora você se deu conta disso, bebê?

Pausa para o amor. O carnaval chegou. O cara embarca com os amigos para a curtição e, sem olhar pra trás, deixa a namorada aqui, apenas com um controle remoto para assistir as escolas de samba pela TV. Tudo isso por um feriado de quatro dias, regado a cerveja, vodka, cachaça, azaração, e beijo na boca em um bando de desconhecidas no cio. (Estou generalizando, meninas).

Será que isso vale mesmo a pena? Sério, não consigo acreditar que um homem que se preze, um homem de verdade, possa largar tão facilmente alguém que, até ontem, ele dizia amar. Cumplicidade, momentos de carinho, companheirismo: tudo invalidado por causa de uma data idiota.

Tenho pena desse tipo de homem. (Digo homem, porque, geralmente, são eles é que realizam essa proeza, mas há exceções, claro. Embora eu acredite que seja raro uma mulher agir assim). Isso pra mim é fraqueza de personalidade e imaturidade. Talvez o cara até goste da garota, mas ele não pode bancar o babaca (de fato ele é um) pros amigos. É uma espécie de complô: Início de fevereiro se aproxima, os solteiros evitam se amarrar e os comprometidos dão um jeito de se desenrolar. Caso não desenrolem, o jeito é pular a cerca mesmo.

Mas besta mesmo é a mulher que se permite ficar em depressão por um crápula desses. Esperta é aquela que se valoriza, ergue a cabeça, faz da canalhice dele uma força para desprezá-lo e, assim, dá a volta por cima.

Avançou o calendário. O carnaval acabou e o ano, de fato, começou. A ‘felicidade’ passageira se foi. A vida segue seu ritmo e tudo volta ao normal. Rotina, trabalho, estudos, finais de semana chuvosos, vontade de ficar quietinho em casa. Passou a empolgação. Ihh, bateu aquela saudade.

Ele cria coragem e tenta recuperar seu amor. Ela diz: O amor ? Ahh…Esse você esqueceu em algum canto do Rio de Janeiro, Salvador, Diamantina, Ouro Preto, Pompéu, que seja.  O único amor que restou aqui é o meu próprio. Quanto a você, espero, de coração, que tenha tido um feriado incrível, pois o meu não poderia ter sido mais produtivo: Serviu para ver o quanto eu me enganei com você, com a gente. Be Happy !

Em busca do ontem

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Você pode voltar a Paris, porque deu saudade. Pode voltar para casa depois de um dia cansativo, pode voltar à sua cidade natal só para viver um momento nostálgico. Pode voltar a um restaurante, porque curtiu o tempero ou o modo como foi atendido. Só não se pode voltar ao ontem. O ontem é página virada. É assunto encerrado. É o tempo dissolvido em meras lembranças.

O ontem é a palavra grosseira que saiu na hora da raiva, por impulso. É a palavra amorosa que não saiu por orgulho, afinal você imaginava que teria outras chances de proferi-la. É a quantidade de dias que você perdeu não estando ao lado de quem ama por soberba, por medo de dar o braço a torcer, e dizer: “Ei, você me faz falta”.

O ontem é a mentira, a chance de dizer a verdade, que foi perdida. É o perdão negado. É o descaso, é uma amizade que perdemos sem perceber. É a juventude que se foi tão rapidamente. É a atitude reprimida. É a coragem que você se esqueceu de usar, quando mais precisou.

É o beijo dado sem ênfase. É o sorriso guardado. É a traição cometida. É a fidelidade ferida e o respeito invalidado. Não há volta. É a história construída em anos e destruída em instantes.

O ontem fica logo ali, há um segundo, quando você leu o parágrafo de cima. Mas é irreversível. Não retornável. Não é possível pegar o próximo táxi e dizer: “Por favor, me leve no ano de 2006, mais especificamente no dia 25 de setembro, tenho uns assuntos pendentes por lá”. Não. O único local que está ao nosso alcance é o HOJE. E é nele que temos a chance de fazer o novo, de novo, e melhor.

Apesar de não existir uma borracha que apague as cicatrizes do ontem, o AQUI e o AGORA é a única chance que nos resta de não repetir os erros do passado. Valorizar mais, demonstrar mais, ser mais leal, mais ousado, menos covarde, mais humilde, menos orgulhoso.

Faça o que tiver que fazer, mas faça agora, pois, até onde eu sei, ainda não inventaram a máquina do tempo.

Em boa companhia

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Bom mesmo é estar com quem a gente gosta. Cuidar para manter perto quem nos faz e nos quer bem e se afastar de quem nos faz e nos quer mal. Cultivar velhas amizades para que ganhem mais força com o passar dos anos, cavar novos espaços no coração e deixar mais calor humano entrar. Jogar água no amor, todos os dias. Plantar gentileza aqui, colher sorriso ali. Não quero perto de mim gente mesquinha, gente mascarada, gente inconveniente. Não sei suportar. Não sei rir sem vontade. Não peço que tenham bom humor constante, que sejam bonitos, nem que tenham uma casa na praia para eu passar os finais de semana. Só um pré-requisito se faz necessário: Que sejam de verdade. Que falem o que a voz de dentro mandar. Que sejam poucos ao meu redor, mas que sejam de carne e osso. Que sejam dotados de energia positiva e que tenham uma só pele. Que sejam apenas, em qualquer hipótese, uma boa companhia. Um brinde às pessoas que eu amo.

Assumindo o controle

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A palavra  ‘destino ‘ sempre me provocou certo fascínio. Ficava encantada com a ideia de que o universo inteiro havia conspirado para que duas pessoas estivessem em determinado lugar, em determinada hora e, por obra do glorioso destino, encontrassem o amor de suas vidas. Maktub. Tava escrito. Lindo ? Brega? Não importa. Hoje, penso diferente.

O tempo passa e, junto com a idade, vem o realismo. Os pés começam a sentir o chão, que não é tão macio quanto às fantasias, mas, em compensação, é palpável e visto a olho nu. Eu nunca vi o destino. E outra, sendo como sou, cheia de vontades, desejos e aspirações, não me agrada saber que tem alguém  – ou melhor, algo –  tomando decisões por mim, tomando as rédeas da minha vida, tomando meu direito de escolha. As escolhas sim, eu vejo todos os dias. Volta e meia elas se apresentam diante dos meus olhos e me obrigam a assumir o controle da minha vida.

Pensando bem, gosto da sensação de ser responsável pelos meus atos. Deixar tudo por conta do destino seria como assistir a própria vida, ou estar presa em um jogo de tabuleiro sem poder mover as peças. Terrível só de imaginar.

Sei que não tenho controle absoluto sobre o que acontece ou deixa de acontecer comigo, mas só de poder escolher entre prosseguir ou voltar já é uma senhora autoridade. Só de saber que a direção que eu optar por seguir irá interferir em todo o caminho, já me sinto mais ativa, mais viva.

Essa coisa de “o que for para ser será” não me atrai mais. O que for, só vai ser, dependendo de você. A Maria e o João do primeiro parágrafo estavam, sim, no mesmo horário e no mesmo local, mas só tornaram o amor da vida do outro porque assim quiseram, por que se escolheram. Resultado de um encontro casual, e não porque as estrelas moveram montanhas para tal.

Com certeza, entregar o volante para esse tal de destino parece mais fácil, já que isso nos isenta de realizar tarefas difíceis na vida. “Se não foi, não era para ser” .  Não se iluda achando que, um belo dia, em um lugar propício, numa hora marcada, a melhor oferta de emprego vai cruzar o seu caminho. Deixar o comando para a sorte pode significar comodismo, falta de atitude e resignação.

Bom mesmo é bater de frente, lutar, errar, cair, aprender, levantar, e por aí vai. Isso é viver. Entregar para Deus? Bom, isso sim parece uma boa opção, pois, pelo menos para mim, ajuda a reunir forças e adquirir sabedoria, mas, na hora do sim ou do não, não tem escapatória. É com você mesmo, meu amigo.

Você não vai com a minha cara?

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Os santos não se bateram. Simples. Não há gentileza que eu faça que mude sua opinião a meu respeito.Você bateu o olho em mim, construiu uma imagem, estabeleceu um (pré)conceito e guardou essa visão desfocada dentro de alguma gaveta do seu cérebro preguiçoso. Pronto. Todos os meus esforços para mudar isso serão, portanto, dispêndio de energia em vão.

Nunca entendi esse tal fenômeno de  ‘não-ir-com-a-cara’ . Boba como sou, sempre achei que, para alguém não gostar de mim, eu deveria ter feito algo errado, mesmo que involuntariamente.

Uns descrevem isso como uma espécie de química interior. Energias incompatíveis. Uma força interna que impede a aproximação de dois seres.  Essências que não se cruzam. Ponto final. Outros apelam para o sobrenatural. Fiz algo errado? Talvez sim, mas foi em outra vida. Tentam justificar essa antipatia – aparentemente sem lógica – por inimizades de uma vida passada.

Enfim. Para mim, esse fenômeno nada mais é que uma boa mistura de: preconceito, inveja e amargura.  Sim, preconceito porque julga-se sem conhecer. Há preguiça de adentrar mais a fundo na vida do outro para, posteriormente, tirar conclusões embasadas. Inveja porque a única explicação para se reprimir alguém que nada nos fez é, justamente, o fato de não sê-lo.  E amargura por que ‘não-ir-com-a-cara’ de alguém é também perder a oportunidade de conhecer alguém novo, experiências novas, novas amizades. É auto-estima baixa. É mau-humor. É orgulho.

Tudo bem, ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Ser mal educada pode até ser um direito seu. Mas, por outro lado, ser indiferente é um todinho meu. Trate-me mal, finja que não me viu na rua. Seja legal com todos da minha família, e vire a cara para mim. Não me importa. Isso não me causa insônia, não me descabela, nem me dá rugas. A única energia que pretendo gastar com essa sua aversão – que nunca entenderei – termina juntamente com esse texto.

Vida Cronometrada

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Revirando arquivos antigos do computador, achei a crônica abaixo, que foi feita para um trabalho de faculdade, em 2010, no 1º período, com a participação de mais duas colegas, Marcela Soares e Paloma Melo. =] É um relato de um jovem dos dias de hoje que resume como funciona o tempo na lógica do capitalismo. Achei legal compartilhar isso com vocês. É grandinha, mas acho que a leitura vale a pena. Boa semana!

Nasci em uma grande cidade, onde o fluxo de pessoas nas ruas é constante. Quando pequeno, sempre via minha mãe saindo para trabalhar, e, chorando, eu me perguntava: Por que ela tem que ir? Meu pai acordava às 5h da manhã para trabalhar e eu me perguntava a mesma coisa. Quando comecei a estudar, me perguntava: por que eu tenho que ir para a escola?

E, no decorrer do tempo, percebi que todas as nossas ações giram em torno de um mesmo objetivo: estudar para conseguir emprego, conseguir emprego para adquirir dinheiro e adquirir dinheiro para adquirir bens.

Todos os dias eu acordo às 6h00, me organizo e calculo o tempo exato que vou gastar até me deslocar ao trabalho. Às 6h15, termino meu banho o qual eu gostaria muito de prolongar e, às 6h30, acabo de tomar meu corrido café da manhã e corro para o ponto de ônibus, quase sempre mastigando alguma coisa.

No ônibus, é sempre tudo igual, encontro com as mesmas pessoas, as que dão sorte de conseguirem um assento vão cochilando e eu, como sempre, estou de pé. Às 7h30, chego ao escritório onde trabalho e meu chefe me espera com uma pilha enorme de papéis e, então, tenho que fazer em um dia de trabalho o que qualquer simples mortal faria em três.

Depois dessa longa manhã, é chegada a hora de almoçar. Durante o almoço, faço 1.357 coisas, inúmeras ligações, mando e-mails, resolvo exercícios da faculdade e etc. Quando menos espero, já são 13h e volto para o escritório onde fico até as 17h30.

Em seguida, às 17h45, mais precisamente, entro em um ônibus e, às 18h15, chego ao metrô. Nesse intervalo de tempo, vou pensando em várias coisas, inclusive em como farei para pagar a faculdade nesse semestre, em arrumar outro emprego, em comprar um carro para não precisar fazer esse percurso tão cansativo! Daí me lembro que carro também requer dinheiro para bancá-lo, logo, não posso, de forma alguma, parar de trabalhar para me dedicar inteiramente aos estudos e obter notas melhores. Vou levando como dá.

Enfim, às 18h45 chego na faculdade… Todos indo em direção a sala de aula, os alunos da tarde saindo, ônibus parando, vans estacionando.

Então, vou rapidamente à cantina lanchar, e, lá, todos estão sempre reclamando do cansaço e da falta de tempo. Exatamente às 19h00 começa a aula e me esforço ao máximo para entender tudo para não ter que estudar novamente em casa, afinal, não tenho tempo para isso.  Às 20h40, é a hora do intervalo e aproveito para ir adiantando alguns trabalhos.  Finalmente, às 22h30, saio da faculdade às pressas para não perder a van, onde não converso com ninguém, pois vou cochilando o caminho todo.

Chego em casa às 23:15 e vou ao quarto de meus pais desligar a TV, pois eles já estão dormindo. Sinto falta da época que passava mais tempo com meus pais, mas eu não tenho outra escolha. Se realmente quero ser alguém no futuro e dar uma vida digna a minha família, tenho que abrir mão de algumas coisas. Inclusive deles. Então, Tomo meu banho e esquento o jantar que minha mãe preparou provavelmente umas três horas antes.

Penso em pegar um livro de minha preferência para ler antes de dormir, mas me lembro que tenho inúmeros trabalhos de faculdade para adiantar ou provas para estudar. Assim, faço isso resistindo ao sono até 02h00, quando, finalmente, vou me deitar. Ufa, acho que só respiro porque isso não gasta tempo. É impressionante como, nesse momento, a cama parece ser o melhor lugar do mundo!

Mas, ainda hoje, depois de crescido, entendendo que somos movidos e cronometrados pela lógica do capitalismo, chego à conclusão que não obtive a resposta da pergunta que eu sempre me fazia quando criança: Para quê? Por que tenho que ir? Por que temos que levantar cedo, abrir mão de nossas vontades e buscar incessantemente esse tal “pedaço de papel” que é o dinheiro? Será que vale a pena? Será que isso é mais importante do que chegar a tempo de jantar com minha família, que a cada dia parece mais afastada? Não sei como responder. Mas, quando olho para o relógio, e lembro que, em cerca de quatro horas, estarei de pé novamente, vejo que pensar também demanda tempo, então, fecho os olhos.

Felicidade simples

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Parece piegas, clichezão, mas sempre dei valor às coisas simples. Aquelas felicidades de pequenos momentos. Felicidades bobas, modestas, mas deliciosas. O suspiro de alívio ao chegar em casa depois de um dia cansativo, tirar os sapatos. Abrir a geladeira e matar quem estava de matando. Curtir minha casa. Tomar um banho, lavar o cabelo e ouvir uma música boa enquanto visto a roupa. Curtir os 10 minutinhos de soneca de manhã. Passar o sábado em casa vendo filmes, agarradinha com quem amo. Dormir com barulhinho da chuva. Dar risadas de molhar os olhos em um dia típico, para aliviar o estresse da rotina. E suspirar depois de rir muito – “aiai”. Tomar um açaí com os amigos, curtindo cada colherada devagar, saboreando. Comer um sonho de valsa e fechar os olhos como se o gosto ficasse melhor assim.  Colocar a fofoca em dia com minha mãe antes de ir me deitar a noite. Ver fotos, cadernos, cartas velhas. Lembrar da infância. Como eu amo a nostalgia. Abraçar meu namorado e ficar um tempinho parada ali, sentindo seu perfume. Brincar de ser criança, de inventar apelidos, de lutar, de morder. Fazer drama. Sentar num bar com música ao vivo, ouvir a música, aplaudir e pedir mais. Pedir comida japonesa por telefone com a família e discutir sobre quem comeu mais. Cinema, cheirinho de pipoca. Viajar ouvindo música, cantando e alterando as letras, só de brincadeira. Sentir o vento, a luz do sol. Amo cada pedacinho de alegria que a vida me proporciona. Porque essas felicidades despretensiosas, que pouco prometem, valem muito, pois nunca nos deixam frustradas. Cumprem o seu papel, não alimentam nossas expectativas, e fazem um dia qualquer se tornar especial.

Por Renata Stuart