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O Atelier de Palavras é um espaço para compartilhar palavras por meio de textos, crônicas, pensamentos, reflexões, poesias, desabafos e tudo o que as palavras têm o poder de construir. Obrigada pela visita e espero que você goste, participe nos comentários e  volte sempre!  

Reflexão


Em Reflexão , você encontra textos sobre assuntos diversos. É uma pausa. Uma pausa para refletir sobre a vida, sobre as pessoas, sobre os sentimentos, sobre o tempo, sobre tudo e mais um pouco. 'Penso, logo escrevo'. 

Textos de Amor


Em Textos de Amor, você encontra palavras sobre amor, paixão, saudades, relacionamentos, dor, perda, desejos, e todas as sensações provocadas por essa palavrinha mágica, de apenas quatro letras. 'Sinto, logo escrevo'.   

Desabafos


Em Desabafos,  você encontra palavras que já não cabem mais no coração e na mente e, precisam, ser externadas por meio da escrita. Espaço de soltar o verbo, criticar, gritar, opinar..enfim, desabafar.  'Escrevo, logo alivio a alma'. 

Resenhas


Um filme, um livro, uma peça de teatro. Em Resenhas, você encontra resumos críticos sobre qualquer obra que vi e resolvi compartilhar. Nada de abordagens técnicas e repletas de conhecimento, escrevo não como especialista, mas como leitora e espectadora.

Entre Aspas


Em Entre Aspas, você encontra palavras de diversos autores. Tanto palavras de autores renomados, que todos conhecem, quanto palavras de outros blogueiros. Caso queira ter suas palavras expostas nessa tag, entre em contato com o atelier. 'Gosto, logo reescrevo'. 

Reflexão

Coragem embriagada

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 1 Comment

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Algumas pessoas têm uma relação no mínimo estranha com o álcool. Eu bebo socialmente, gosto de sentar para conversar e beber com os amigos. Seja vinho, cerveja ou destilados, o álcool parece deixar a alma mais leve, o ambiente mais descontraído, e as preocupações mais distantes. (tudo ilusão).  Sem hipocrisia,  já exagerei na dose sem perceber que estava no meu limite e, sim, dei vexame. Quem nunca? Rss..Não, essa não é uma reflexão sobre alcoolismo. Pudera eu falar sobre esse problema sério que atinge boa parte da população. O fato que me assusta e me aflige é outro: há quem precise dessa substância no sangue para simplesmente SER. Ser em essência, de dentro pra fora, despir a alma, acender a luz e deixar visível o que quase ninguém vê.

Quem me conhece sabe que nunca precisei do álcool para colocar pra fora o que me incomoda.  Sou totalmente a favor de um mundo mais franco. Se estou chateada com você, vou te procurar, sóbria, para conversar e soltar o verbo. OK, não vou entrar nesse mérito, não é tão fácil ser assim e eu não espero que todos sejam. Ninguém é igual a ninguém. Uns preferem guardar o que sentem lá dentro e deixar o tempo consertar (colocar a poeira embaixo do tapete, em outras palavras). O problema é quando a pessoa condiciona certos momentos ao álcool. Já chorei e pulei de alegria e até briguei bêbada, mas não preciso estar bêbada para chorar, pular de alegria e brigar. Uma coisa não depende da outra. É preciso se arriscar mais, se sujeitar a sentir mais, se entregar mais, sem a tal desculpa “eu tava bêbado, não lembro”.

Sabe aquele fulaninho que só sabe se divertir bebendo? Ou aquele que só desabafa e se entrega aos problemas quando enche a cara? E pior, aquele que só é verdadeiramente verdadeiro (a redundância é proposital) depois de uns bons engradados? Já vi gente que é só sorrisos e elogios em dias “normais”. Basta se entregar à bebida e começam as críticas, os dedos apontando falhas e a boca soltando mágoas há tempo guardadas. E até a inveja, às vezes camuflada no dia a dia, dá às caras e se mostra depois de uns drinks.  Sou do seguinte lema: tem algo te perturbando, remoendo, machucando? Respire fundo, vá em frente e resolva isso de cara limpa, não há nada mais covarde do que usar a bebida de escudo.

Da mesma forma, há quem seja frio e indiferente durante os dias de sobriedade e, basta alguns goles de uma cerveja barata, para abrir o coração e dizer o quanto ama ou precisa de alguém. Se amanhã o arrependimento bater, é mais fácil colocar a culpa nos efeitos colaterais da bebida…”foi papo de bêbado, liga não”. Nada contra quem distribui “eu te amo´s” depois de umas taças de vinho, eu mesma já fiz isso. Mas é preciso distribuir ‘eu te amo’ a quem nos importa, todos os dias, nem sempre com palavras, mas com atitudes, gestos, sorrisos.

Pois é.  O álcool diminui a censura, arranca máscaras, revela sentimentos.  Acho triste quem precise dele para se mergulhar nesse imenso mar de sensações que é a vida. A coragem embriagada vem fácil. Quero é ver a transparência sóbria, que nos coloca de frente – e por inteiro – com as dores e as delícias do viver.

Independente do que for, o bom mesmo é  s-e-n-t-i-r,  ao pé da letra, nos fortalecendo com aquilo que nos machuca e nos emocionando com o que nos faz bem. Por fim, concluo com um pensamento sábio que li por ai:  tem tanta gente com medo – da dor e da felicidade – que prefere viver anestesiado. 

Por Renata Stuart

Uma crônica em dez minutos

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 1 Comment

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Me propus a fazer um texto – que nem sei se posso chamar de crônica – em apenas dez minutos. É exatamente o tempo que eu tenho antes de ter que tomar o banho e seguir para os afazeres do dia. Sobre o que falar em dez minutos? Tudo é tão complexo, tão difícil de resumir, a vida é tão extensa e, ao mesmo tempo, tão breve. Agora mesmo, li uma frase – dessas que o povo compartilha no facebook – que ficou pipocando em minha mente. É tanta informação inútil compartilhada nas redes sociais que quando uma nos chama atenção entre tantas é porque foi realmente merecido. Essa me chamou. E dizia, em inglês, “Algumas pessoas sentem a chuva. Outras apenas se molham.” Num primeiro instante, fala sobre a chuva, óbvio. Mas a metáfora inserida nessa frase é de uma sabedoria sem tamanho. Uma verdadeira metáfora sobre a vida. Algumas pessoas trabalham com prazer, outras apenas trabalham. Algumas pessoas vivem de corpo e alma, outras apenas vivem. Algumas pessoas se doam e conquistam amigos para vida toda, algumas se fecham tanto que se tornam apenas “amigos”. Algumas pessoas dão sorrisos abertos sem um motivo aparente, outras apenas sorriem socialmente. Algumas pessoas vivem 24horas ativas em prol de se sentir bem e contagiar quem está por perto, algumas simplesmente deixam o dia passar, no piloto automático….Algumas pessoas correm atrás  de soluções, de mudanças, outras apenas sabem fazer reclamações. Algumas pessoas vivem diariamente em busca de realizar os próprios sonhos, outras simplesmente sonham. Algumas pessoas se revoltam com a vida de vez em quando e choram litros, outras não choram, não se expressam e “engolem” os impulsos da vida. Algumas pessoas confiam inteiramente ainda que isso seja arriscado nos dias de hoje, outras vivem com o pé atrás, com desconfiança até da própria sombra. Enfim, eu poderia ficar aqui até amanhã fazendo essa brincadeirinha…Mas e você? Tem sentido a chuva ou apenas se deixado molhar?

Por Renata Stuart

Prazer, reflexão e direção.

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 1 Comment

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Mais um dia comum se iniciava. A manhã passou voando e ela, como sempre, não teve tempo de resolver todas as coisas que tinha em mente. Estava mais uma vez almoçando às pressas para ir para o trabalho. Escovou os dentes, jogou uma fruta dentro da bolsa e pegou as chaves, da casa e do carro. Joga a bolsa no banco do passageiro, se ajeita, coloca o cinto, fecha os vidros e liga o som. Parece bobagem, mas o simples percurso da casa ao trabalho era para ela um lazer. Como amava dirigir. Ali dentro era sua bolha, seu lugar de “repouso” em movimento, seu canto de reflexão, mas sem perder a concentração. Com seu CD favorito tocando, ela esquece da vida.  Um momento dela e dela mesmo, hora sagrada. No meio da multidão no trânsito e, ao mesmo, tempo, sozinha, isolada, reservada por trás dos vidros fechados do carro. Enquanto espera o sinal ficar verde, passa o batom e, se der tempo, o lápis de olho. Se não der, ela espera pelo próximo. Às vezes, desliga o ar condicionado, abaixo os vidros e deixa o vento bater em seu cabelo solto. Piegas, sim, mas aquela sensação de liberdade era a melhor coisa do dia para ela… A liberdade de poder ir e vir. O dia podia ser um tédio, mil problemas para serem resolvidos, mas, durante o volante, quem comandava era a paz de espírito, a harmonia interior. As pessoas deviam pensar, que menina boba, tudo isso porque está dirigindo? Todo mundo dirige e não ficam mais felizes por isso.Mas ela não dirigia só por necessidade de locomoção, também dirigia por prazer. Talvez porque seu signo lhe impunha uma certa vontade de comandar, de liderar, de se sentir independente…Na verdade, não estava comandando nada, apenas o próprio caminho, e isso lhe bastava.  Nem o trânsito intenso e os “motoristas de domingo”, sem educação e desprovidos de respeito, tiravam esse momento dela.  Tudo bem, ela também não era  assim tão boa samaritana ao volante, de vez em quando se irritava com algum indivíduo imprudente que ultrapassava sem dar seta, ou um motoqueiro com poder de invisibilidade que surge cortando pela direita.Às vezes soltava um palavrão para si mesma e resmungava, mas depois ria sozinha, imaginando como a pressa parece ser a única coisa que move todos … Pensando, romanticamente, que as pessoas deviam ser movidas pelo amor, pelo sorrisos, pelos instantes inesquecíveis, pelo prazer . “F****. Que o trabalho espere, que a reunião aguarde, que o horário com o médico fique para quando der”. E assim estacionava o carro com seus pensamentos mirabolantes. No fim do dia, depois de muito trabalho, mais uma vez era hora de se sentar consigo mesma e refletir em movimento, sua terapia em monólogo mental. Desta vez, refletia sobre o dia que se passou, sobre o que fez, o que não fez e o que ficou para amanhã.

Mais uma vez, sob o volante, ela iniciava sua segunda pausa do dia, seu break, seu freio, seu momento particular, a hora de quebrar a agitação e parar! Só que acelerando…

Por Renata Stuart

A gaiola da vida

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 4 Comments

Se há um obstáculo para a verdadeira liberdade, esse obstáculo é o medo. O medo da mudança. O medo de trocar o certo pelo duvidoso. O medo de largar o que nos parece “melhor” – ou mais certo – no momento, para buscar algo que nos instiga por dentro, algo que ainda não é concreto, mas que vive e respira em nossa mente.

Só o verdadeiro QUERER – aquele que lateja e incomoda – nos torna capaz de abandonar a estabilidade, a calmaria de uma vida dentro dos conformes – programada para dar certo – e correr atrás de sustentar os desejos mais interiores, aqueles que parecem mais absurdos, mais insanos e utópicos.

Constantemente, pensamos “Mas e se nada der certo? E se eu me arrepender? E se tudo for em vão? Terei perdido tempo à toa, sem sequer sair do lugar”.  Sendo que, na verdade, não sair do lugar é justamente o fato de não tentar, não arriscar, não se sujeitar ao erro. Não ser fiel aos nossos instintos, às nossas vontades, aos nossos quereres, mesmo que esses mudem amanhã, quando o sol nascer.

Se se arrepender, volte e recomece. Se errar, tente de novo. E, se de repente, mudar de opinião, não se julgue por isso. Por que enganar a si mesmo? Quem disse que o certo e esperado é sempre manter nossas escolhas até o fim?  É preciso ser forte e bravio para ter coragem de assumir a tal da metamorfose ambulante. Com medo de parecer imprudente, frívolo e inconstante, muitas pessoas “mantêm” suas escolhas até o fim, ainda que, no fundo, essas já não sejam verdades em essência.

O fato é: a necessidade de aparentar alguém sério e certo do que quer para o resto da vida tem valido mais do que satisfazer o próprio eu. Sim, é de se admirar quando alguém é cheio de si, que mantém firmes as escolhas que fez até o fim, sem ao menos trepidar. É admirável, mas desde que isso seja feito por inteiro, que a pessoa esteja, de fato, abraçando os resultados de suas escolhas, desde que tudo isso seja REAL.

A vida é frágil, breve, a existência é ligeira. Até que ponto estamos fazendo realmente cada dia valer a pena? Até que ponto sacrificamos os sonhos que nos perturbam – no bom sentido – para viver o que nos parece mais conveniente naquele momento? Diga-me: até que ponto você vai guardar ai dentro toda essa sede de ousar, errar e descobrir? Até que ponto você consegue se encarar e saber realmente definir quem é você?

Ter coragem de mudar é, antes de tudo, ser honesto consigo mesmo. Abrir mão da estabilidade para viver os riscos que as escolhas nos impõem é para poucos. Mas se manter “firme e repleto de certezas” apenas para se mostrar confiável diante dos outros é total sinal de fraqueza.

O bom da vida é poder confiar em alguém que seja capaz de se reavaliar sempre. Que esteja disposto a se desgarrar daquilo que não é mais – do que falhou, do que se arrependeu  - e procurar o melhor caminho para a própria vida. Acredite: essa gaiola que você vê à seu redor é imaginária, você mesmo a coloca ai, ninguém mais pode ser responsável por ela.

Não que tudo isso seja fácil. Escrever é muito mais simples que viver, óbvio. Mas a liberdade de correr riscos é uma premissa importante, que devemos tentar aplicar em nossa vida aos poucos. Dia após dia, tenho me dado uma chance para arriscar e, por que não, errar. Até os erros têm um lado bom, só precisamos saber vê-lo. Se dê uma chance também. Seguindo o velho e bom clichê, o pior é se arrepender daquilo que não fez.

Por Renata Stuart

 

Então…é Natal!

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Já gostei do natal. Quando criança, dezembro era sinônimo de fantasia, férias, Papai Noel, presentes e viagens. Eu me lembro da euforia com que eu e meus irmãos acordávamos para descer as escadas e ver os presentes que o “bom velhinho” havia deixado na árvore. Típica cena de filme americano, rs..Mas era uma delícia. Não me lembro de quando foi que descobri que essa tarefa era feita pelos meus pais! O amigo oculto, as comidas gostosas, as luzinhas e até as musiquinhas de natal me agradavam. Tudo era motivo de alegria.

Hoje, o natal não me provoca as sensações que um dia provocara, talvez porque eu tenha crescido e minha sensibilidade já não esteja tão aflorada, talvez porque meu irmão caçula não está mais aqui para compartilhar comigo essa fase do ano que ele mais amava ou talvez porque, hoje, eu enxergo o outro lado do natal. O lado triste, obscuro e injusto.

Fico pensando que, ao mesmo tempo em que eu esperava o papai Noel, as crianças pobres também esperavam, ainda que não tivessem uma árvore de natal ou uma casa com chaminé. Todas esperam. E, por sorte, meus pais tinham condições de alimentar a minha ilusão. Mas e quem não tem pais? E quem tem pais cujo dinheiro é suficiente apenas para comprar comida e olhe lá?

Ouvi um dia desses uma senhora humilde dizendo que, quando criança, sempre achou que o papai Noel não gostasse dela, pois seus presentes nunca chegaram. E, todo ano, ainda que no ano anterior ela não tivesse recebido nada, sempre restava uma pontinha de esperança que esperava o papai noel, mais uma vez.

Triste realidade. É duro pensar que essa fantasia intrínseca ao natal não é tão gostosa assim para alguns e, no fim das contas, só traz mágoa. Definitivamente, o natal não tem o mesmo gosto para todos. . Esta é, sem dúvidas, a fase em que a desigualdade social fica mais nítida, ao menos aos meus olhos.  Sobra muito para alguns e falta quase tudo para outros.

Uns associam a época apenas a gastos descontrolados, cartões de créditos estourados, compras, compras, compras e muita fartura. A mesa farta da ceia, com a imensa variedade de pratos e sobremesas, é imprescindível. E enquanto esses comem e trocam presentes à meia noite, outros continuam vagando as ruas vazias e iluminadas, sem saber o porquê de tanta alegria. Chato pensar neste outro lado, né?

Sem falar que a data se transformou em uma das comemorações mais comerciais que existem. Poucos param pra pensar no verdadeiro significado do Natal e nem sequer dedicam um minuto para ao menos agradecer a Deus pelo dom da vida. Muita gente não conversa com o irmão ou com o pai há anos, mas no natal distribui sorrisos tentando esconder a mágoa interna.

O Natal tem que ser mais que isso. O natal tem que significar renovação, amor, perdão, paz, solidariedade. Mas não adianta sair por ai com um caminhão de presentes para doar as crianças pobres se você não está bem com as pessoas ao seu redor. Não adianta dar vinhos, panetones e chesters ao lixeiro e ao mendigo, se você vive em guerra com a própria família.

O amor tem que começar dentro de você, dentro da sua casa, para depois ser externado. Aproveite. Essa é a hora que temos para abrir o coração e deixar tudo de bom sair e contagiar quem precisa e se deixar ser contagiado também.

Dê e receba amor. Feliz Natal.

 

Por Renata Stuart

Escrevendo sobre o inevitável …

Posted on by Renata Stuart in Desabafos, Reflexão | Leave a comment

Eu tentei evitar falar sobre isso, aliás, sigo todos os dias da minha vida tentando não pensar nisso.  E eu tentei adiar esse momento, mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, eu teria que me sentar e escrever sobre isso.  Isso que eu não gosto nem de citar o nome. Tá, pode parecer superstição ou sei-lá-o-quê, mas eu não gosto de falar o nome e pretendo ir até o fim desse texto sem sequer citar o objeto dele.

Isso que não aconteceu comigo ainda, mas vai acontecer. Não aconteceu com você que está lendo essa crônica nesse instante, mas vai acontecer, cedo ou tarde. Talvez você não tenha tempo nem de chegar ao fim desta crônica, mas talvez você tenha tempo não só de ler essa crônica, mas também de ir estudar amanhã, depois e depois até pegar seu diploma em direito, casar-se com seu futuro marido que você vai conhecer no tribunal, ter uma carreira reconhecida e mega estabilizada e, claro, muitos filhos de dar orgulho. Enfim. Cedo ou tarde, não importa quando, um dia isso vai acontecer com você e com todos. Mas o fato é: nunca estamos preparados para isso.

Já sabe do que estou falando, né? É bom que saiba, pois não posso ser mais literal que isso.  Parece ironia eu falar disso justo agora, logo em seguida da última crônica que postei aqui, em que o assunto era a celebração da vida, da existência. Sim, a vida é linda e é justo que se façam milhares de histórias, textos, crônicas, versos, poesias e sonetos sobre ela. Mas o fim da vida – que não manda cartão postal anunciando sua chegada – também deve ser retratado, afinal, ele é totalmente intrínseco a nossa vida.

Dizem que morrer faz parte da vida. Ninguém aceita, mas faz. A vida tem suas milhares de fases e a morte é apenas uma delas. Pronto. Parece frio e seco dito assim, à grosso modo, eu sei. Como se isso fosse óbvio e incontestável, mas não é. Não é simples assim e eu ainda não consigo aceitar a morte, justamente eu, que tenho essa mania de querer que tudo seja para sempre.

Acho muito fácil algumas pessoas falarem que a morte faz parte da vida e que devemos aceitá-la a todo custo. ‘Aceitar’ não sei bem se é a palavra, acho que caberia  mais ‘suportar’, ‘tolerar’. Não entra na minha cabeça que devo aceitar tranquilamente que nunca mais verei meu irmão caçula que eu tanto amo. O que eu entendo é que não tenho escolha, não me restam opções. O mundo não acabou como eu achei que acabaria e, dessa forma, sigo vivendo sem ele. Aceitando? Jamais. Mas seguindo como alguém que é incompleto. Mas, afinal, quem é completo nessa vida? Todo mundo sente falta de algo. Uns de pessoas, outros de coisas, outros de sentimentos, outros de status. E todos vão vivendo assim, nessa busca incessante de suprir a falta de algo.

Antes de simplesmente nos falarem que a morte faz parte da vida deveriam implantar esse ensinamento nas escolas então, desde o princípio, lá no maternal, sabe? Para que cresçamos com a consciência natural de que, no meio do percurso da vida, algumas pessoas nos serão tomadas e que não devemos irracionalmente querer apertar o stop e parar de viver também. Por outro lado, pensando bem, se a morte fosse tratada das escolas comumente, tenho certo receio de que tanta naturalidade a banalizaria. Ou seja, as pessoas poderiam até sofrer menos com as perdas, mas também seriam mais frias e, talvez, insensíveis. Sei lá, acho arriscado.

E a esta altura, você já deve ter reparado que, ao contrário do que prometi no início, acabei soltando a palavra que resume essa crônica: A morte. É, vamos repetir: a morte. Quem sabe assim fica mais fácil aceitar essa cruel que só nos condena a tristeza e a saudade. Sei que não é um assunto legal para se ler, me perdoe. A morte ainda é tabu e ler uma crônica sobre ela não anima o dia de ninguém. Mas, assim como eu disse no texto anterior que envelhecer é viver, morrer também é viver, afinal, para morrer, é preciso, antes, estar vivo.

 

Por Renata Stuart

Porque envelhecer é viver …

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É o meu aniversário. Sim, não me importo em anunciar: Estou ficando mais velha hoje. Aliás, não só hoje, todos os dias, fico um pouco mais velha. Sim, essa é uma das poucas certezas que temos nessa vida. Todos (os que têm sorte), com o passar dos minutos, horas, dias, semanas, meses, envelhecem. Acontece que apenas nos anos é que a gente se lembra de celebrar isso.

E tudo ocorre de forma sutil, a gente quase nem sente num período de curto prazo. Vamos apenas vivendo e quando nos damos conta: Os anos se passaram. E, então, as marcas do tempo começam a falar. Não falo apenas de rugas ou cabelos brancos, falo das cores, gostos, sentimentos e sensações que ficam para trás, dando lugar a outros, nem melhores, nem piores, mas diferentes. O calendário da vida passa pra todos. Disso, não há como fugir.

Mas, calma, não quero fazer um texto dramático sobre “como-o-tempo-voa” ou “a-idade-chega-para-todos”. Nada disso. Pode continuar ai. Hoje, eu quero brindar a vida. Sim, acho justo! Afinal, há exatamente 22 anos, eu nasci. Num mês frio, durante a madrugada, num parto meio turbulento – sim, pois minha mãe visitou vááários hospitais naquela noite em busca de um médico obstetra – eu vim ao mundo. E, já que estou aqui de passagem, por que não comemorar essa deliciosa viagem que é a vida?

Não entendo bem porque as pessoas têm tanta neura com idade. Envelhecer é algo inerente ao ser humano. Estar velho ainda é estar vivo. Acho que isso deveria ser encarado como só mais uma fase – natural e especial – da vida. Afinal, não é só você que está ficando velho, mas todos da sua geração. E é hora de viver isso juntos, encarar a situação de frente, assumir o tempo de cabeça erguida. Bom, não serei hipócrita. Sinto saudades da minha infância, dos meus quinze anos e sei que, um dia, vou sentir saudade dos 22.  E quando penso que estou próxima dos 30, então?! Sinto um friozinho na barriga como que um misto de tristeza e ansiedade. Tristeza porque sei que terei deixado para trás uma época memorável. A universidade, os amores mal resolvidos, aquela dose de irresponsabilidade, o namoro, as primeiras conquistas, e a famosa “época de arriscar”. Tudo isso vai passar, eu sei. E ansiedade porque sei que há uma outra fase única me aguardando.

Mas é assim que tem que ser. São essas velinhas que sopramos ao longo da vida que nos acrescentam algo como pessoa. São os momentos vividos, experiências adquiridas e escolhas feitas que dão o peso necessário à nossa bagagem. Tenho que prosseguir. E, se para correr atrás dos meus sonhos ainda não alcançados, terei que continuar envelhecendo, que venha o tempo, e que venham muitas velas para eu soprar, pois meus anseios são muitos e tenho planos para um século. Já dizia minha bisavó: “Quem não quer ficar velho, tem que morrer novo”.

É por isso que, hoje, eu só quero sorrir para a vida. Sorrir para todos a minha volta e para mim mesma. Sorrir como alguém que não tem a vida perfeita, mas como alguém que é feliz com o que tem e com o que se tornou. Sorrir como quem é grata pela família inigualável, pelo lar, pelos amigos verdadeiros e pelo amor companheiro. Sorrir pelos abraços, beijos e palavras sinceras. Sorrir pela saúde, pela determinação, pela esperança. Sorrir pelo maior presente que eu podia receber: estar viva!

 

Por Renata Stuart

Distância, fique longe de mim!

Posted on by Renata Stuart in Reflexão, Textos de amor | 3 Comments

Se ela tivesse um gosto, seria amarga. E como é insensível, faz doer sem piedade e causa um vazio dentro do peito de quem é separado por ela.  O ponteiro do relógio parece mais lento, os dias se parecem iguais e o coração fica mais apertado. Sim, falo da distância, essa danada que anda sempre de mãos dadas com a saudade, outra desnaturada.

Várias são as distâncias que nos acometem nessa vida. Tem a distância de quilômetros. De pessoas que moram longe umas das outras e que não podem se ver sempre devido às circunstâncias da vida, casa, trabalho, afazeres, enfim. E tem os casais – coitados – que namoram a distância e que contam os dias, as horas, os segundos para cruzarem o território que os separa.

A boa notícia é que, para esses casos, há algumas soluções razoáveis que a querida tecnologia nos oferece.  Meios de comunicação estão aí aos montes, não é mais necessário sinal de fumaça nem pombo-correio. Para amizade distante, digo o mesmo. Distância não é desculpa para falta de contato. Ouvi uma vez que tempo é prioridade e nós é quem decidimos a quem dedicar nosso precioso tempo.  Uma ligação de vez em quando não faz mal a ninguém. Não é a mesma coisa, óbvio que não. O calor humano, o cheiro, o toque, nada disso pode ser sentido sem a presença real, física, inteira. Mas, convenhamos, sem esses meios, seria impossível sobreviver a tal da distância.

Agora, sendo mais poética, penso que uma das piores distâncias é, sem dúvidas, a distância dos corações. Você o vê com frequência, quase todos os dias, distância física não é o problema. Mas o fato é que ele não te vê. O coração dele está longe demais para se cruzar com o seu. E ai dói ainda mais. Ver, estar ali pertinho e, ao mesmo tempo, não estar, não ser notada. Acredite, a saudade é ainda pior quando não é correspondida.

A distância causa sensações, reações e sentimentos mais absurdos. A distância de quem partiu de vez causa revolta e inconformidade quando nos lembramos de que nunca mais estaremos com aquela pessoa. Nesse caso, a distância é infinita e não são só quilômetros que separam duas pessoas, mas a diferença de estar e não estar respirando. O que dói um bucado.

“Ah, distância. Fique longe de mim! Você não me faz bem.” Mentira. A distância pode fazer bem sim. Ela nos ajuda a enxergar melhor os fatos. Muitas vezes, precisamos estar longe para ver melhor. A proximidade sofre influências que ofuscam nossa visão com relação a alguém ou a um fato. E a distância nos dá clareza, imparcialidade e maturidade para julgar certas coisas da vida. Quando estiver confuso(a) em meio às tempestades da vida, tome um tempo consigo mesmo e se distancie de tudo. A resposta sempre vem.

Mas, cuidado. A danada é cheia de contradições. Quando um relacionamento acaba, por qualquer motivo que seja, a distância é a hora de descobrir como é se virar sem o outro. E é aqui que mora o perigo. A distância não só magoa, mas engana e causa ilusões. Tudo, quando não está mais ao alcance dos nossos olhos, nos parece melhor do que realmente era.

Nossa mente passa a fantasiar que tudo era lindo e cor de rosa.  O cara que era estúpido e frio passa a ser um doce. “Poxa, ele também não era tão ruim, era só o jeito dele de ser, ele tinha uma maneira próprio de dizer que me amava” ou Não vou encontrar outro igual a ele, acho que fui incompreensível, devia ter perdoado, ele tem qualidades raras”.

E adivinhem: tudo que era razoável se torna maravilhoso. Pois é, a distância também causa amnésia. Tudo de ruim que alguém nos fez é esquecido ou fica em segundo plano e só os bons momentos vêm à tona. Não sei bem porque isso acontece, não sou psicóloga nem a dona da verdade. Mas já li muito sobre isso e, o melhor, já vivi isso. Bom, acho que nosso cérebro faz isso para despistar o coração. Ele meio que não aguenta mais ouvir o choro do coração e, por isso, evidencia a “memória boa” na nossa mente para que o coração se renda e acabe de vez com essa distância que causa saudade e faz doer. Compreende? Não? Chega mais perto. Leia com o coração. Quem sabe, assim, a gente se entende.

 

Por Renata Stuart

Somos o que recordamos

Posted on by Renata Stuart in Reflexão, Resenhas | 2 Comments

Hoje assisti ao filme The Vow, que significa “O voto”, mas que, por algum motivo, foi traduzido no Brasil como “Para Sempre” .  Na trama, que é inspirada em fatos reais, um casal apaixonado e com poucos meses de casados (Paige e Leo) sofre um acidente que causa na mulher uma lesão cerebral, deixando- a sem a memória de curto prazo. Ou seja, ela se lembra de sua vida toda, mas não recorda absolutamente de nada dos últimos cinco anos que viveu, inclusive do seu marido.

Agora, além de não conhecer o próprio marido, a mulher se sente ligada ao seu ex-noivo, de quem não se lembra de ter se separado. E o marido, ao invés de desistir da mulher que agora o vê como um mero estranho, luta de todas as formas para merecer o amor dela novamente, o que não parece fácil, já que cinco anos foram suficientes para modificar, e muito, sua esposa.

Uma frase que me marcou no filme foi: “Cada um de nós é a soma dos momentos que já tivemos. E de todas as pessoas que já conhecemos. E são esses momentos que se tornam nossa história.”  Apesar de parecerem simples, achei essas palavras de uma sabedoria sem tamanho. Não, esse não é mais um texto de amor. É só um pensamento que absorvi dessa linda história e gostaria de compartilhar.

Sendo assim, se o apagar da memória interfere tão fortemente no que somos e no que sentimos, não é difícil concluir: Somos o que recordamos. Eu sou o lugar onde nasci e as pessoas com quem convivi. Eu sou as coisas que fiz e faço, dia após dia. Cada atitude simples e banal que já tive definiu quem eu sou hoje. Eu sou o que eu vi, por onde passei e com quem estive.  Sou todas as conversas que tive em toda minha vida. Sou os olhares, abraços e gestos que me marcaram. Sou os livros que li, os filmes que vi, os textos que escrevi. Sou os meus momentos, as situações que enfrentei e até as coisas que nunca vivenciei.

Tudo, absolutamente cada detalhe, formaram a minha pessoa. Havia infinitas possibilidades para o meu ‘ser’, eu poderia ter sido um ‘eu’ completamente diferente do meu ‘eu’ se eu tivesse nascido em outro lugar, convivido com outras pessoas, com outras referências, e vivido experiências diferentes que, certamente, me levariam a caminhos diferentes.

E a vida é isso, um trem em viagem constante. Um trem que, em cada ponto que passa, acrescenta algo no bagageiro. E essa bagagem é o que somos. É a nossa essência. São nossos gostos, valores, escolhas, atitudes. Pode parecer óbvio, piegas ou filosofia barata, mas, em síntese, se tudo o que vivemos é guardado na memória, a memória é quem guarda o que somos.Ela é a nossa identidade-mor. É onde moram nossas opiniões, crenças e sentimentos.  É onde a gente se encontra secretamente com a gente mesmo, onde nossos pensamentos se organizam, onde tudo que está ao redor passa a fazer sentido.

E se somos a nossa memória, que sejamos algo que valha a pena ser lembrado e que não mereça ser esquecido. Não falo de títulos, méritos, nem reconhecimento. Falo de alma, coração e, claro, intensidade.

Por Renata Stuart

O mundo paralelo dos hospitais…

Posted on by Renata Stuart in Reflexão | 1 Comment

Ainda não chovia, mas o dia era nublado e frio. Voltando do estágio, cerca de 14h, lá estava eu no ônibus, de botas, cachecol, ouvindo minha música no fone de ouvido, pensando em mil coisas ao mesmo tempo, entre elas no trabalho de marketing que eu tinha que terminar, no banho que eu queria tomar quando chegasse em casa e, claro, na fome que eu estava (já que eu ainda não tinha almoçado).

Mas eu não ia almoçar naquele dia. Eu tinha uma hora marcada com a médica e, como ficaria tarde, resolvi que comeria um sanduíche natural ou algum salgado no hospital mesmo. Argh. Hospital. Eu, que odeio sequer a ideia de pisar em um, estava ali a poucos minutos de uma consulta de rotina. Dei sinal, desci do ônibus e, nesse exato momento, a chuva começou a cair. De uma maneira brusca, intensa, tão forte que tive dificuldade em abrir o guarda-chuva, o vento era agressivo também. Era como se o céu compartilhasse do meu sentimento em ter que ir a um hospital. Eu não gostava, aliás, eu detestava.

Sinto uma coisa ruim dentro do peito, uma angústia repentina. Não sei bem o que é, quer dizer, acho que sei. Depois de mais de um ano  indo e vindo do hospital para acompanhar e apoiar a luta do meu irmão caçula para vencer o câncer, eu criei uma resistência natural a hospital. Até natal e reveillon nós passamos no hospital, dois anos seguidos. Não que eu não gostasse de  ficar com ele, eu amava. Cada segundo ao seu lado, dando força, o fazendo rir, dando comida na boquinha dele, cada segundo era maravilhoso. Era confortante ouvir a risada dele e ver a pureza e a esperança naqueles olhos azuis lindos. Doía vê-lo naquela cama, claro, cada vez mais pálido e diferente fisicamente, mas só o fato de estar ali era infinitamente melhor do que estar em casa, sem ele.

Enfim, mas como eu vinha dizendo, eu criei uma repulsa a hospitais, especialmente esse que eu estava prestes a entrar. Esse que se “recusou” a prosseguir na luta pelo meu irmão. “Leve-o para casa, aproveite-o ao máximo, não temos mais o que fazer” – Foi o que nos disseram, de forma seca e crua. Aquela frase ressoava na minha mente sempre que eu passava por ali.  Como assim? Eles estavam pedindo pra gente desistir do nosso anjinho, da nossa razão de viver? Queriam que a gente assistisse à partida dele de braços cruzados? Claro que não! Ouvi certa vez que enquanto há vida, há esperança. E fomos buscar nossa esperança noutro hospital.

A luta durou mais quatro meses mas, de qualquer forma, foi uma luta. Nós não entregamos os pontos sem tentar até o último instante. Não vencemos, mas ele reuniu todas as suas forças até o último suspiro e, para mim, ele já foi um vencedor. Às vezes, fico pensando se não deveríamos ter deixado ele vir para casa e vivido os quatro meses de outra forma…como naquele filme “Antes de Partir” em que a pessoa faz uma lista das coisas que queria fazer. Mas só de imaginar que estaríamos ali, vivendo cada dia como uma despedida – decretada e conformada – me dá pânico.  Seria difícil sorrir sabendo que os sorrisos eram os últimos. E por que deveríamos dar ouvidos àquele médico, àquele hospital? Aquela era só UMA das milhares de opiniões que poderíamos ouvir. Então, penso que cada dia de luta valeu a pena, do contrário, não saberíamos como seria se tivéssemos tentado mais, mais e mais. E a vitória não veio por falta de luta, por falta de esforço, por falta de esperança. Por algum motivo – que talvez um dia eu entenda – a vitória não veio.

E, naquele dia cinza, eu estava a caminho do consultório. Era estranho pensar que, num outro tempo, eu entrei por aquela porta com outros olhos, com outro objetivo e o mais importante: completa. Sim, completa, pois meu irmão ainda estava aqui e eu ainda não sabia como era a dor de perder quem amamos muito. Hoje, quem entrava naquele mesmo lugar, era o que sobrou de mim. E o hospital, o qual eu já conhecia cada corredor e o rosto de cada funcionário, continuava intacto, do mesmo jeito. Parecia que o tempo não passou naquele lugar.

A vida lá fora é diferente, o ar é diferente, a energia é diferente. E não importa o quão refinado é o hospital, não há decoração, conforto ou ar condicionado que preencha o vazio de um hospital.  Tudo ali dentro é tão sufocante e silencioso, mas, ao mesmo tempo, é um silêncio que diz muito, como um instante à espera de uma resposta, de um exame, de um diagnóstico, de um sim ou de um não que mude tudo. E a ausência de cores, ao invés de fornecer a sensação de calmaria, só me passa a sensação de ausência. Ausência de vida, de alegria, de ar livre.

Bancos de espera repletos de pessoas em busca de alguma solução, umas nem tão graves. Eu mesma só estava ali fazendo um check-up, ainda bem. Mas muitos estavam ali na mesma luta que um dia eu e minha família estivemos com meu irmão. Há pessoas nascendo, dando boas-vindas ao mundo, pessoas lutando para sobreviver, pessoas se cuidando para não adoecer, pessoas morrendo, dando adeus ao mundo. Pessoas entregues à própria sorte. Pessoas em busca de esperança, em busca de uma saída que lhe permita um passaporte de volta para o mundo lá fora. Para o mundo onde saúde não é problema, onde todas as preocupações são pequenas e até fúteis. O mundo onde a vida realmente acontece.

É assim que eu me sinto quando vou a um hospital, em um mundo totalmente paralelo, alheio, à parte. É como se, ali, fosse só uma pausa, um intervalo, uma interrupção da verdadeira vida. Um mundo que, quem está do outro lado, em sua zona de conforto e sua rotina diária, nem sequer lembra que existe.

É por isso que, hoje, com esse olhar mais atento ao contraste desses dois mundos, tento dar mais valor aos meus dias aqui, do lado de fora. E agradeço a Deus por ter condições de viver meus dias aqui, sem precisar estar lá, no mundo paralelo. Aqui, o mundo é diferente. Aqui tem cores, calor humano, liberdade e eu não preciso ver o mundo através de uma janela.

Eu posso explorar as ruas, tomar um bom café na lanchonete, pegar um cinema com os amigos, sair para almoçar fora com a família, sentir a chuva me molhar ou, simplesmente, ler um bom livro deitada na minha cama, no meu espaço e, sim, na minha zona de conforto. E é por isso também que cheguei a uma conclusão: Saúde tem que bastar para sermos felizes. Quem a tem, não é feliz porque não quer.

 

Por Renata Stuart